Livro: The Handmaid’s Tale (Margaret Atwood)

0118.jpgFinalmente é chegada a sexta-feira e eu arranjo um tempinho maroto para aparecer por esse cantinho e contar sobre um livro maravilhoso.

Já disse uma vez em algum lugar por aqui que o Desafio Literário tem por trás, na verdade, a intenção de me apresentar a outros clássicos sobre os quais nunca tinha ouvido falar antes, livros a que eu não atribuiria muito valor e desconheceria por completo não fosse o fato de estarem na listagem. “The Handmaid’s Tale”, ou “O Conto da Aia” em português, se encaixa bem nesse conceito. E mais, talvez não tivesse lido-o agora não fosse a influência da série inglesa também, que foi muito elogiada e me fez correr para pegar o livro antes que tomasse qualquer spoiler.

A história se passa em Gilead, um território existente no que anteriormente seria os Estados Unidos, já que estamos tratando de uma distopia. Sabemos, através dos olhos e lembranças de uma Handmaid, alguns fragmentos do que ocorreu na história recente e culminou com essa organização completamente patriarcal. A nossa protagonista era uma mulher comum, que usava jeans, fumava e bebia, era separada e tinha uma filha ainda pequena com o ex-marido quando uma mudança total ocorreu e um golpe se instaurou. Ela até tenta fugir com a família, mas é pega e levada para um ginásio onde estão várias outras mulheres como ela.

Essas mulheres jovens e com comprovada história de fertilidade, são então ensinadas sobre as regras novas da sociedade e seu novo dever de servirem como úteros para os bebês de figurões do novo poder. É dito que devido ao modo como as pessoas viviam antes, rodeadas de produtos industrializados e expostas a grande quantidade de resíduos químicos, grande parte da população se tornou infértil (e como a sociedade é machista, é sobre os ombros das mulheres que recai a culpa). Para lidar com isso, as Handmaids passam um período na casa desse homem de poder, gera e tem um filho e depois adeus, vai para outra casa que precise de uma criança. Não raro essas crianças já nascem com defeitos que impedem sua sobrevivência, o que se torna uma tragédia.

As mulheres são proibidas de ler até mesmo palavras isoladas e simples, assim como não devem estar inteiradas das notícias e do que se passa fora do ambiente doméstico. As esposas desses homens de poder têm algumas regalias, mas no geral também são impedidas de diversas coisas. Há ainda as mulheres que ajudam nos serviços de limpeza e cozinha nessas casas, com papel inferior mas mais seguro do que uma Handmaid, que pode ser executada a qualquer sinal de rebeldia ou mandada para as colônias assim que parecer que não pode gerar um filho. E ninguém quer ir para as colônias, onde se vive por pouco tempo.

Offred é a protagonista e esse não é seu nome real. “Of Fred” é algo como, “do Fred” em português e denota apenas a casa a que ela serve, assim uma mesma mulher muda sua denominação assim que passa para outro posto. Offred ainda se lembra de seu nome, mas não ousa contá-lo nem mesmo às outras Handmaids, que perigam ser agentes disfarçadas do Eye, espécie de agência secreta para lidar com traidores. O maior perigo à vida de uma Handmaid é, entretanto, ela mesma. Suicídios são a causa mais comum de morte entre a categoria.

Nossa história começa a mudar de figura pela ação aparentemente anômala dos dois donos da casa. O Comandante passa a solicitar encontros secretos com Offred em algumas noites e acaba mostrando seu amplo acesso a produtos proibidos, revelando que a vida dos homens em realidade não se alterou tanto dos modos antigos. Já Serena Joy, a esposa do Comandante, claramente descontente com a presença da Handmaid em casa e os vários meses em que precisa testemunhar o marido fazendo sexo com ela, sugere que a moça passe a ter encontros secretos com o motorista da casa Nick. Quase ao mesmo tempo ela descobre através de outra Handmaid a existência de uma organização de resistência em Gilead.

O epílogo é, na verdade, uma parte bastante reveladora do texto, em que se simula uma palestra de estudiosos do período de Gilead e é possível perceber (muitas vezes apenas por dicas bem sutis, como haver uma professora mulher entre a lista de palestrantes) que algo da antiga ordem foi estabelecida. Ao mesmo tempo em que o professor parece desconfiado por não acreditar muito no relato das fitas deixadas por uma Handmaid e escusar muito do comportamento masculino como inocência e boas intenções, é possível saber como Offred agiu assim que o livro tem seu fim misterioso.

O livro é assombrosamente atual e tem uma visão claramente feminista, mostrando como a sociedade patriarcal, mesmo não sendo tão extremada como no livro, trata as mulheres e a resistência, mesmo silenciosa, que sempre existiu. Em certa altura, Offred descobre uma inscrição em latim de sua predecessora na casa e seu significado é uma das partes mais fortes do livro. Então guarde aí com você também esse “nolite te bastardes carborundorum” e não deixe os bastardos te derrubarem.

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

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