Livro: Kafka à Beira-Mar (Haruki Murakami)

0117.jpgMais de um mês para ler um livro. Significa que ele ou é bastante longo e precisei de tempo ou é enfadonho e eu não queria ler. No caso de “Kafka à Beira-Mar” é a segunda opção.

A história do livro na verdade não se distingue tanto assim do primeiro livro do autor que li – “Minha Querida Sputnik”. Ambos os livros tratam de personagens jovens, que estão se deparando com questões existencialistas e experimentam sensações fantásticas que separam a parte material do espiritual.

Há no livro uma distinção entre duas narrativas que não exatamente se encontram, mas se tocam mais ao fim do livro, colocados em capítulos alternados. Kafka Tamura é um rapaz de 15 anos que foge da casa que dividia com o pai apenas com uma mochila nas costas, o aparelho de reprodução de música e suas questões a resolver. Disposto a ir para uma parte do Japão distante de Tóquio, Tamura acaba em Takamatsu onde consegue amizade com o funcionário de uma biblioteca e conhece a misteriosa Sra. Saeki. Tamura carrega nas costas não só o peso de sua mochila, mas também a profecia do pai de que um dia ele o mataria e se deitaria com a mãe (bem Édipo mesmo). Para conversar, o menino confia seus segredos mais ao Menino Corvo, uma entidade imaterial que aparece apenas em certos momentos.

A outra história do livro é a do idoso Nakata. O velhinho não nasceu com problemas mentais, mas durante a infância um estranho incidente transformou o menino brilhante em alguém com séria deficiência intelectual e com o estranho dom de falar com gatos. Nakata complementa a renda que o governo lhe dá fazendo pequenos trabalhos de busca de gatinhos perdidos em sua vizinhança. Um dia, entretanto, em uma dessas buscas, ele acaba se deparando com Johnnie Walker e matando a figura fictícia. Após o assassinato, o idoso pega várias caronas, sempre se dirigindo a um ponto no horizonte que parece estar chamando-o. No caminho encontra um companheiro, o motorista Hoshino, que acabará auxiliando-o na missão predestinada.

Sobre o que achei do livro: como disse ao princípio, a leitura sofreu muitos perrengues por ser parada e enfadonha. Mesmo nas férias, era difícil encontrar a disposição de abrir o livro e encarar mais um capítulo. Para tentar contrabalancear, comecei a tentar sempre parar em um capítulo sobre Nakata, que achava mais interessantes do que os dedicados a Kafka, um personagem que estou certa de que saiu diretamente dos desejos de realização do autor. Kafka é um personagem meio overpowered: alto, forte, com um pênis bonito (não estou nem brincando…), que ao mesmo tempo é culto e apreciador de boas leituras e suas conversas são sempre muito aprofundadas. Ou seja, um  adolescente de 15 anos que não existe em lugar algum a não ser nos desejos de alguém de reter o melhor de todos os mundos (juventude, força, beleza e sabedoria). Ao mesmo tempo, algumas histórias mais interessantes são apenas pinceladas, como a de Oshima e Hoshino, personagens relegados a um papel secundário. A escrita de Murakami, entretanto, ainda sofre daquele problema que falei na primeira vez: dá para sentir quase o gostinho do orgulho exagerado do autor sobre sua própria obra e suas descrições algo desnecessárias, um certo gostinho de egocentrismo difícil de engolir. E cada vez entendo menos o pessoal que adora tanto o autor, mas pode ser apenas pelo fato de eu sempre preferir o gênero mais realista nos livros.

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