Livro: Amsterdam (Ian McEwan)

0114Vamos retomar os trabalhos e recomeçar a postar nessa bagaça como eu fazia sempre? Tô numa fase em que me concentrar em qualquer coisa tem sido difícil, mesmo quando o que estou fazendo é um prazer, então me aguentem um cadinho mais…

Ultimamente estou procurando mais autores contemporâneos do que os clássicos para ler, só que como tenho o Desafio Literário a cumprir me vi tendo que recorrer a parte mais atualizada da lista e é por isso que Ian McEwan voltou a aparecer por essas bandas.

“Amsterdam” é um livro sobre o qual nada sabia quando comecei, o que acho sempre bom porque cada virada de página acaba sendo uma surpresa. A história começa com o funeral de Molly Lane. Essa mulher, apesar de ausente em corpo pelo resto da história, tinha um espírito tão forte, uma personalidade tão exuberante, que mesmo após sua morte acaba afetando todos os eventos que ocorrerão com os muitos homens que fizeram parte de sua vida.

Apesar de ter vivido uma vida rica, cercada pelo créme de la créme da sociedade intelectual e artística britânica dos anos 80/90, Molly acaba sofrendo com uma terrível doença ao final de sua vida, necessitando dos cuidados de um homem que todos os seus amigos (e ex-amantes) consideram desprezível. George não se importa com esse contínuo desprezo dos outros homens no funeral, regozijando-se de ter sido o último elo de Molly em vida.

Conhecemos nesse evento triste os antigos amigos (agora um tanto afastados) Clive e Vernon, que acabam se reaproximando e conversando sobre como a eutanásia teria sido um final de vida mais digno para a amada Molly do que a partida que acabou recebendo. Clive é um compositor de renome que nos últimos meses tem se dedicado a uma composição para o final do milênio, uma música que pretende ser tão grandiosa quanto que se igualaria a Beethoven. Vernon é um jornalista, chefe de um jornal não tão grande que está sofrendo para aumentar (ou ao menos não ver caírem) o número de assinantes em uma época em que ninguém mais parece interessado em jornais. Conhecemos no funeral também o Secretário de Relações Exteriores, o ardiloso Julian Garmony, que pretende logo se candidatar ao cargo de Primeiro Ministro. Todos esses homens, em algum momento de suas vidas, partilharam a cama de Molly e a consideram o verdadeiro amor de suas vidas. Em contrapartida, pelo que conhecemos dos fragmentos do passado, foi Molly quem terminou com todos eles, não se vendo definitivamente com ninguém. Clive e Vernon, nossos personagens principais, parecem estar sempre se auto-desculpando por sua incompetência, culpando aos outros por suas inabilidades e defeitos. Com a morte chocante de Molly, Clive e Vernon acabam fazendo um pacto de que caso algo semelhante acontecesse com o outro, o amigo em plenas condições mentais tem a permissão de dar um fim digno à sua vida.

É aqui que começam a se desenvolver eventos que, como uma cadeia de dominós, levará ao fim claro traçado nas primeiras páginas do livro (claro para mim, mas não sei se o “mistério” é tão visível para todos os leitores). George, o marido de Molly, acaba mostrando fotos algo chocantes para Vernon, sabendo que o editor não resistiria a um grande escândalo envolvendo Julian Garmony para levantar seu jornal. Vernon procura a opinião de Clive de imediato, que o desaconselha com todas as suas forças a publicar as fotos de Julian. Ao mesmo tempo, Clive se vê em um bloqueio criativo do qual não consegue sair por nada, bebendo quantidades cada vez mais absurdas e escutando Beethoven em repeat para tentar se inspirar, sem muito sucesso. Clive acaba se afastando, indo para outra propriedade, onde em uma caminhada pelos bosques acaba presenciando uma cena de violência entre um casal e, para evitar qualquer empecilho ao seu trabalho criativo, acaba decidindo não denunciar. Confessa, entretanto, o testemunho ao amigo Vernon. Temos então uma situação em que cada um dos amigos acaba com o orgulho próprio ferido e uma bala engatilhada contra o outro: Vernon criticando a inação de Clive frente ao evento de violência e Clive criticando a escolha sensacionalista de publicação de fotos de Vernon. E é assim que os dois acabam se tornando inimigos inesperados e, quando tudo começa a desabar em suas vidas, se voltam um contra a garganta do outro, com o encontro final ocorrendo na cidade holandesa que nomeia o livro.

Mais interessante que essa conclusão é, entretanto, o epílogo em que conhecemos o que sucedeu de suas ações e como os fatos se desenrolaram após o confronto de Vernon e Clive. Sabemos sobre como foi a recepção à grande obra que Clive escrevia e sobre os efeitos das escolhas de Vernon sobre as fotos. Especialmente a parte sobre a obra de Clive foi hilária, na minha opinião. O livro é bem construído, como tudo o que Ian McEwan escreve. Me parece que ele sempre sabe onde vai chegar quando escrever sua última frase e consegue com maestria erguer seus plots. Meu problema com esse livro foi, na verdade, o fato de ser bastante óbvio ao começo onde o final irônico iria chegar.

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