Série: Dear White People (1ª temporada)

MV5BOTY0NTMzMDAxN15BMl5BanBnXkFtZTgwMjg2MTIwMjI@._V1_SY1000_SX674_AL_.jpgApós extensas recomendações e elogios de uma amiga, comecei a assistir “Dear White People”, a série crítica sobre racismo da Netflix. Como vocês bem sabem, já faz alguns anos que ando bem desanimada com o mundo de séries americanas, dedicando todo meu amor às historietas coreanas. Mas essa aqui me pegou de jeito e consumi seus 10 episódios de cerca de 30 minutos cada um em pouco mais de uma semana.

A primeira coisa que você deve saber é que, na verdade, essa história já foi contada. Há um filme de 2014 de mesmo nome que aborda os mesmos temas e, em parte, com os mesmos atores. E qualquer busca no google vai te mostrar isso. Entretanto, só quando a Netflix começou a anunciar a estreia da série na sua programação é que o pessoal atentou e, pasmem, muita gente cancelou a assinatura por causa disso.

A série de passa no Winchester College, uma universidade fictícia que pertence à Ivy League e é predominantemente composta por estudantes brancos (e ricos). No ambiente universitário conhecemos a minoria negra, que fica isolada em uma casa estudantil própria (o que para mim já é em si mesmo um conceito meio estranho, já que não sei como funcionam essas casas estudantis). Os primeiros episódios se focam, cada um, em um dos personagens principais da história, mas depois esse conceito cede e vemos alguns deles mais de uma vez.

Samantha White (Logan Browning) é uma das mais ferrenhas defensoras dos direitos negros na universidade, comandando um show de rádio escutado por toda a universidade cujo nome é o mesmo da série. Sam está em todos os movimentos de protesto e é a voz mais conhecida de um grupo maior de alunos que está atento a tudo o que acontece no campus, sendo às vezes retratada como até mesmo injusta aos outros negros devido a suas opiniões. Vem como uma grande surpresa para esse grupo quando descobrem que Sam namora um branco, o hipster Gabe Mitchell (John Patrick Amedori).

Quem está (e sempre esteve) apaixonado por Sam é seu grande amigo Reggie Green (Marque Richardson), com quem um fato chocante ocorrerá durante a série. Em outros núcleos temos também o presidente do corpo estudantil, Troy Fairbanks (Brandon P. Bell), que tenta criar de todo modo uma ponte de cooperação entre as opiniões mais acaloradas entre os dois lados, de modo que sua imagem perfeita nunca seja afetada por qualquer escândalos, agradando assim seu pai, o reitor da universidade. Troy divide o quarto com Lionel Higgins (DeRon Horton), que além de lidar com o fato de ter gostos considerados brancos demais pelos outros negros ainda é atormentado com o fato de sua possível homossexualidade. Coco Conners (Antoinette Robertson) é a jovem ambiciosa que anda com as patricinhas do campus e namora Troy. Coco já foi amiga íntima de Sam, mas as duas se afastaram e Coco a acusa de não lidar com o seu “light-skin privilege” (como Sam é mestiça, tem um tom de pele mais claro que o de Coco, além de olhos claros que a tornam mais “aceitável” como negra na sociedade). A série conta também com um interessante grupo de personagens secundários, que pincelam outros temas importantes como os jovens do jornal Pastiche, um jornal de humor branco que zomba da militância negra, os amigos igualmente hipsters de Gabe, a organização de alunos asiáticos, os jovens do jornal da escola, um jovem vindo de um país estrangeiro (que eu queria muito, muito mesmo, que tivesse protagonismo também) etc.

Começamos a história com um evento que vai desencadear as ações a seguir e iniciar a apresentação dos vários pontos a serem abordados: a festa “negra” realizada pelo Pastiche, em que muitos alunos brancos compareceram fazendo blackface. A partir desses ponto vamos conhecendo esses personagens e esse micro-universo e, às vezes, vemos alguns flashbacks que nos esclarecem um pouco mais sobre a história de cada um e como chegaram onde estão.

O limite de compreensão é exatamente a particularidade da situação apresentada. Estamos lidando com uma história sobre jovens negros americanos em uma universidade de elite, o que difere muito de nossa realidade em todos os seus desafios. Os Estados Unidos também tiveram uma história de escravidão, mas é uma história muito diferente da nossa história brasileira. Sua sociedade também lida com os desafios de sua história, mas esses desafios também são intrinsecamente diferentes dos brasileiros, mesmo que haja certa convergência em certos assuntos mais amplos. Mais do que tudo, estamos lidando com jovens que conseguiram chegar ao ensino superior em uma universidade de elite, algo que parece ainda mais difícil em nosso contexto. Estou aqui apenas pincelando alguns temas que fui percebendo, mas com certeza já devem existir por aí textos mais lúcidos sobre esses temas escritos por membros de coletivos negros brasileiros, a quem você deveria consultar para perceber melhor esses aspectos. Além de tudo o mais, você deve ter em mente que quem está aqui desse lado do teclado é uma jovem mulher branca e magra, pertencente à classe média e moradora de uma grande capital, então a minha narrativa da série seria limitada, e é por isso que estou lhe referindo a melhores reflexões sobre o tema.

Mas descontando tudo isso, adorei a série e a coragem do autor de meter o dedo da ferida que precisa ser remexida. Aconselho a todo mundo, branco, negro, amarelo ou vermelho, a assistir a série.

 

Advertisements

Leave a Reply

Fill in your details below or click an icon to log in:

WordPress.com Logo

You are commenting using your WordPress.com account. Log Out / Change )

Twitter picture

You are commenting using your Twitter account. Log Out / Change )

Facebook photo

You are commenting using your Facebook account. Log Out / Change )

Google+ photo

You are commenting using your Google+ account. Log Out / Change )

Connecting to %s