Livro: The Magic Mountain (Thomas Mann)

0110.jpgPode não parecer mas o desafio literário está vivo e em andamento. Houve uma pausa significativa entre posts porque esse livrinho sobre o qual escrevo me consumiu um tempo considerável (e em algumas passagens também uma paciência que não tinha à época, abarrotada de coisas a fazer para a faculdade).

Hans Castorp é o nosso protagonista, a quem vamos aprender a ver com olhos duais de incredulidade por algumas coisas que ele faz e perdão subsequente, já que ele parece tão inocente o fazendo. Órfão de ambos os pais, Hans é criado por um parente e quando o encontramos está prestes a iniciar a vida profissional, começando seus estudos sobre a construção de navios. Antes de começar a trabalhar de fato, entretanto, Hans utiliza a pausa para visitar o primo Joachim Ziemssen, que está em um sanatório para tuberculosos nas montanhas, e assim tratar uma leve anemia que apresenta na ocasião. Joachim e Hans são opostos. Enquanto Hans se delicia desde o princípio com a vida confortável e sem pertubações em meio a bucólica paisagem nevada, apreciando as pausas para descanso e as refeições ricas, Joachim deseja com todas as suas forças voltar às terras planas para se alistar no exército e começar sua ascensão militar. Hans começa a apresentar sintomas de febre baixa e os dois médicos do sanatório recomendam uma estadia mais prolongada para a perfeita cura de qualquer condição que o paciente apresente, cura essa promovida pelos ares puros das montanhas. Hans mais do que prontamente aceita essa nova condição e se adequada com alegria ao novo tipo de vida, ao mesmo tempo em que vemos o seu primo cada vez mais descontente com os consequentes adiamentos de sua alta.

No sanatório vamos conhecendo pouco a pouco outros personagens, como a russa Madame Clavdia Chauchat, que bate portas ao entrar em qualquer aposento, e logo se torna o interesse romântico de Hans. Além dela se apresentarão Settembrini, com quem Hans desenvolverá algumas conversas de cunho filosófico (desenvolver talvez seja um termo errado, já que ele mais escuta do que fala qualquer coisa…) e também o rival de Settembrini, o religioso Naphta, com suas opiniões totalitaristas. Conhecemos também um pouco dos dois médicos que comandam o sanatório ao longo dos muitos anos que Castorp termina permanecendo no local, assim como vemos muitas histórias que não terminam em alta, mas na morte daqueles que por muito tempo compartilharam da mesa e dos costumes peculiares do local.

Uma das coisas que mais me chamou a atenção como estudante de medicina é exatamente o papel desses dois médicos e da própria concepção dos pacientes no local. Os médicos elogiam Hans logo em sua chegada pois percebem nele uma tendência a ser um “doente pacífico”, resignado e até mesmo feliz com seu  tratamento, ou seja, não rebelde como seu primo, que deseja a alta e a liberdade e convívio no mundo real lá embaixo. Essa atitude de Hans será elogiada diversas vezes e, quase como punição, quando Joachim noticia sua saída a revelia, o médico ameaça Hans com a alta. Não fica claro se o interesse dos médicos é apenas a clara contribuição em dinheiro regular que esse tipo de doente traz ou se há até mesmo uma satisfação pessoal em achar alguém tão disposto a acatar a suas ordens sem o minimo de desobediência. Outro ponto interessante é em como os pacientes desenvolvem uma cultura em torno de suas doenças, comparando chapas de raio-X e comentários do exame físico, como passam a se considerar tão doentes quanto os doutores dizem e não como realmente se sentem. As perdas eventuais dentre os números de moradores é um detalhe que ninguém gosta de abordar, aproveitando muito mais os longos momentos de nada a fazer ou os laces e desenlaces amorosos que se realizam (à despeito de qualquer compromisso nas terras baixas, que são desconsideradas nesse reino mais elevado) e obliviando da memória os eventos trágicos com exemplar presteza.

O autor é magistral inclusive nos apresentando um personagem principal que é algo tolo e de atitudes repreensíveis, alguém de quem não podemos expressar grandes sentimentos de afeto ou desafeto. Ao final do livro, quando o narrador passa a conversar mais com o leitor, torna-se claro que essa era realmente a intenção: não dá para defender Hans em suas tentativas tão arregadas de não retornar à realidade e as responsabilidades, mas também não há desgosto com o personagem nem repulsa a suas atitudes. O pobre Hans Castorp é um personagem que queria férias da vida, algo que não sabia até quando se viu frente a frente com essa oportunidade, e todos os seus erros são justificados pela inapetência de lidar com o mais difícil e o real, o que todos nós temos como membros da espécie. Ao final do livro, entretanto, o personagem “se redime” ao tomar uma posição extremamente ativa na Primeira Guerra Mundial, um conflito que mudou inclusive como a humanidade passou a lidar com sua história e as suas atitudes.

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