Livro: Os 13 Porquês (Jay Asher)

2941063(Estava adiando esse post há um bom tempo por falta de uma maneira melhor de vocalizar uma impressão muito forte que tive durante a leitura. Felizmente, hoje vi dois textos que tratam de maneira muito melhor do que eu poderia formular com esse sentimento que tive durante a leitura.)

Escutei sobre o livro e o procurei para ler pois soube da adaptação da Netflix em 13 episódios. Como sempre, tento dar uma disparada e ler antes das séries/filmes estrearem, para não tomar spoilers desnecessários. Mas não. Não quero assistir a série e isso tem tanto a ver com o livro quanto com as escolhas dos diretores e produtores.

Clay Jensen é um adolescente que, após mais um dia escolar normal, acha uma caixa de sapato em frente a sua casa. Dentro estão algumas fitas cassete numeradas frente e verso, do número um ao 13. Ao tocar a primeira fita no som da garagem, Clay escuta uma voz inesperada: quem gravou as fitas foi Hannah Baker, alguém por quem Clay nutria sentimentos românticos. Mas Hannah não está mais entre eles, tendo cometido suicídio pouco tempo antes. Clay passa a tarde e noite inteira escutando as fitas, que trazem em cada lado um nome relacionado a série de eventos que (pretensamente) levaram a menina ao ato fatal. A história que Hannah conta se relaciona a certa ausência das figuras paternas, algo de isolamento social e também desprezo por atitudes alheias e próprias por parte da menina. Mais do que isso acho desnecessário dizer, tanto porque nada tem de muito importante, tanto porque acho a explicação dos eventos um tanto fraca por parte do autor.

Jay Asher claramente criou o livro como uma bandeira contra o bullying e as atitudes normatizadas da adolescência, mas com uma narrativa de mistério. O autor usa uma linguagem simples para ser entendido por seu público alvo, recorrendo a um protagonista que entra na história quase como um observador, já que apesar de seu nome estar nas fitas, a ele não é dada qualquer culpa na história. Asher queria que seus leitores entendam e simpatizem com Hannah, que reflitam sobre suas atitudes que poderiam ser nocivas a outros, pessoas mais fragilizadas. Mas o autor falha e cai na própria armadilha. E onde o autor cai, a série despenca.

Hannah se mata não tanto devido a uma depressão sem solução, mas já de caso pensado gravando suas fitas, querendo apontar o dedo a alguém por suas atitudes, querendo que as pessoas sejam  culpabilizadas e que alguém (Clay?) vingue-a. Há culpa nos acontecimentos e também culpa aqueles que não notaram os sinais de algo errado. Já começamos assim de um ponto de vista simplista, que vê bem e mal como as únicas opções. Lendo o livro, mesmo sob o ponto de vista de Hannah, fica claro que a grande maioria dos envolvidos na verdade não cometeu grande crime. Eles apenas foram os adolescentes comuns, cada um enfrentando seus próprios demônios ou conflitos internos, e como todo adolescente (inclusive a nossa protagonista) sendo egoísta e crendo que seus são os maiores problemas já existentes na face desse planeta azul. Mas o maniqueísmo, essa tendência absolutista de transformar o que é complexo em “bom” e “mau”, torna essas pessoas os vilões da história. Não deveria ser assim e na nossa realidade do lado de cá também não funciona, já que todos se lembrarão e se colocarão no papel de vitima, nunca o de culpado. Há um professor envolvido na história, a quem em certo ponto Hannah põe todo o peso de sua escolha. Mas é claro notar que esse professor não teria como ajudar a garota, ele próprio muito despreparado diante de uma adolescente que, apesar de não admitir isso, já estava com a escolha feita antes de vê-lo. E é assim que entramos em nosso segundo problema.

Ninguém tem esse poder total sobre a vida de outra pessoa, de mudar sua escolha quanto a vida e morte, como pretensamente Hannah faz crer. É uma atribuição de poder que a garota faz que novamente leva a uma culpa imensa, especialmente por parte de Clay. Depressão é um problema complexo, muito mais difícil de abordar do que a narrativa tenta fazer e talvez por isso o livro não consiga se explicar como deveria/gostaria. Em última análise, a pessoa pode contar com a ajuda de pessoas preparadas como psicólogos e psiquiatras a encontrar uma solução para transtornos de tal natureza. Mas deve dficar claro que o indivíduo tem autonomia nesse escolha e tratamento e só melhora de fato se quiser melhorar. Nenhuma força externa pode ajudar a sair do poço quem se recusa a agarrar a corda. E muito menos outros adolescentes deveriam receber a culpa total pelo ato.

O terceiro ponto que quero abordar trata mais da série (que como disse não vou ver) do que do livro. No livro sabemos apenas en passant sobre como se deu o suicídio, através de pílulas. Já na série, ao que parece, foi dada especial atenção a uma cena longa e cruel em que a personagem corta os pulsos em uma banheira. (Acabei de descobrir ser muito fácil achar a cena em questão no YouTube). Não deveria dizer que isso romantiza o suicídio de maneira inaceitável e praticamente “ensina” como o fazer para aqueles que poderiam já ter pensado no ato, mas não sabendo como o fazer. Existe nos estudos da mente algo chamado “Efeito Werther”, que gostaria de abordar nesse momento. O efeito tem clara ligação com o livro de Goethe (que inclusive tem resenha aqui) em que o protagonista se mata devido a um amor não correspondido. Pois bem, o livro foi um sucesso à época e jovens se vestiam como o personagem, eram melancólicos em imitação à ficção e, como não poderia deixar de ser, muitos se mataram como Werther. A partir desse exemplo podemos ver como a ficção ou relatos de suicídio acabam levando a um aumento do número de atos parecidos, o que pode acontecer também devido a série. Os episódios mereceriam ao menos um “trigger warning” (ou aviso de gatilhos) para aqueles que já cogitaram suicídio, passam por problemas ou sofrem de depressão. Mas nada disso se apresenta, tornando a série um perigo em potencial.

Recomendo, por fim, dois textos esclarecedores sobre alguns porquês para você não ver a série:
– https://www.facebook.com/pablovillaca01/posts/1069416173163608

– https://www.facebook.com/lftofoli/photos/a.337423276451452.1073741828.159217847605330/647490008778109/?type=3&theater

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