Livro: Dias Perfeitos (Raphael Montes)

Algumas considerações: Esse não é o primeiro livro do Raphael Montes que eu li. Nessa mesma semana li “O Vilarejo”. Entretanto, estava muito mais ansiosa para escrever essa resenha porque o livro foi tão fenomenalmente RUIM que sabia que me divertiria escrevendo esse post. Então, em um ato bem pouco usual resolvi passar esse texto à frente dos outros.

13671_gg.jpgA primeira coisa que eu devo te aconselhar nessa vida após essa leitura talvez seja também a mais óbvia: Não acredite no auê. Se você for daqueles que se baseiam em resenhas elogiosas para ler um livro, provavelmente escutou em algum momento sobre esse novo autor brasileiro (e ainda por cima carioca como moi) que “está revolucionando a escrita policial”. Sinto dizer que eu caí no hype, principalmente naquele que falava sobre o livro mais recente do autor, e acabei adquirindo três livros dele (O Vilarejo, Dias Perfeitos e Suicidas). Já posso adiantar que a leitura do primeiro não agradou tanto, mas a decepção de vez só veio com “Dias Perfeitos” e a na constatação da imaturidade de escrita e narrativa de Montes. É por isso que te recomendo não apenas olhar as reviews 5 estrelas, mas sim aquelas com 1 ou 2 no Skoob e Goodreads…

A história é sobre Téo, estudante de medicina de 22 anos sem amigos que vive com a mãe paraplégica e um cachorro chamado Sansão. Téo tem uma estranha relação (não sexual) com um cadáver da sala de anatomia a quem apelidou de Gertrudes. Um dia a mãe o chama para ir a um churrasco e lá ele conhece Clarice, uma menina que estuda História da Arte e escreve um roteiro (com um argumento bem meia boca). Ela é a menina “diferentona” por quem Téo se apaixona e que acaba movendo os acontecimentos para um sequestro mal pensado e executado, assassinatos e no final, um desfecho besta. E vamos a diversão.

Raphael publicou o livro quando tinha a mesma idade do personagem, o que talvez explique a visível inapetência em desenvolver seus diálogos, que são especialmente sofríveis de acompanhar visto que nada tem de original. Clarice é uma tentativa muito mal feita da Manic Pixie Dream Girl, aquele típico esteriótipo de garota diferente de todas as demais tão presente nos filmes e livros escritos por homens. De verdade, Clarice nada tem de tão diferente das meninas da Zona Sul carioca (onde o livro se passa) e sua justificativa de porque pinta as unhas de cores diferentes (“Para ser diferente das outras”) é uma das coisas mais idiotas que já li na literatura. E não melhora nada ao longo do livro, enquanto vemos os personagens interagirem mais e notarmos que, realmente, Téo poderia encontrar 500 outras Clarices se apenas quisesse entrar em qualquer bar de Ipanema. A personagem não é original, mas sim um bando de clichês envolto em um envelope já gasto.

Téo também não é um personagem forte. Apenas dos amplos elogios que li sobre como o rapaz é um sociopata de construção impecável pelo autor, isso é uma ideia falsa já que Téo não passa de uma cópia ruim de (adivinhe) personagens clichês cinematográficos do que é um psicopata, com o agravante de que quando o roteiro pede o autor abandona ou retoma essas características que deu ao personagem para poder conduzir a história. Assim, em certa hora o personagem é incapaz de sentir amor ou empatia, em outro ele faz isso sem problemas.

O livro ainda sofre com a clara comparação com “O Colecionador”, de John Fowles, e sai perdendo por léguas de distância. Os personagens de Fowles são muito melhores e a história muito melhor conduzida e crível. É óbvio que em pouco tempo a comparação virou uma denúncia de plágio. Plágio não acredito que seja, mas não duvido que Montes bebeu muito da fonte de Fowles. A cena em que Téo está em um bar de motel e mata uma borboleta parece dialogar claramente com “O Colecionador”.

Algumas outras implicâncias:
– Montes é nascido e criado na Zona Sul e tem uma visão no mínimo errônea do subúrbio carioca. Em certo momento ele justifica através de Clarice as brigas de mãe e filha como “minha mãe é do subúrbio e tem cabeça fechada”. Eu sou do subúrbio e escutar isso de quem é da ZS só confirma o imenso gap que há entre nossas realidades. Não, amigo, apenas pare.
– Descrição de roupas. Por quê? Juro que o autor perde tempo em dizer que “Téo vestiu uma camisa pólo” ou “Clarice usava um vestido dourado” quando isso não faz diferença NENHUMA no enredo. É uma implicância que trago desde o tempo em que lia fanfics e muitas meninas cometiam. Só me fale sobre esses detalhes se eles ajudam a construir o personagem ou tem interesse para a ação narrada. Caso isso não se aplique, não precisa falar.
– Colocar Clarice em uma mala. Tudo bem que a personagem é descrita como pequena e magrinha, mas mesmo assim é difícil colocar uma pessoa em uma mala, mesmo dormindo. Isso sem contar a falta de oxigênio que a faria naturalmente se mexer ou morrer lá dentro nas muitas viagens que Téo faz com a garota presa.
– A família de Clarice é um espetáculo à parte. Que mãe é essa que vendo o “novo namorado” da filha apenas uma vez confia nele cegamente, a ponto de não se importar muito com o fato de não falar com a garota por MESES e não suspeitar de nada quando ela chega cheia de cicatrizes e em coma ao Rio novamente? Raphael com certeza é um preguiçoso na construção de enredo e opta por torcer a verossimilhança para criar suas histórias…

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Isso é uma ampola, querido autor.

Sobre a área que me pertence, a medicina, deixa eu te contar que tem muitas incoerências, mas isso nem foi o que mais me irritou no livro:

Logo no começo do livro Téo é mostrado em uma aula de anatomia que trata sobre músculos e no meio do livro está “lendo” Sobotta (Sobotta é um atlas, ou seja, figurinhas com indicações de anatomia. Não conheço ninguém que “lê” Sobotta). Ora, essa é uma aula que eu tive no primeiro período e que em todas as faculdades é dada no início da faculdade, já que é sobre a anatomia que se apoiarão todos os conteúdos que se seguem. Pensei, portanto, que Téo ainda estava no começo da faculdade. Logo depois, entretanto, Téo vai a um laboratório de patologia, o que o colocaria além do quarto período em qualquer universidade pública do Rio de Janeiro. Ele depois ainda rouba frascos de remédio da universidade, o que revelaria estar em algum período mais avançado, assim como a “cirurgia” que realiza mais ao final do livro. Suturas ele até pode aprender durante o curso, mas procedimento cirúrgico só no final da faculdade, amigão. O personagem ao começo revela querer ser patologista, algo que caberia melhor a um médico que odeia pessoas, já que patologistas tem menor contato com pacientes. Ao final do livro, entretanto, ele se torna psiquiatra, cuja função está absolutamente ligada à relação médico-paciente. Como eu disse antes, Raphael Montes dobra as próprias regras de seu personagem e comete muitos furos para contar sua história. O maior de todos talvez seja o uso de um remédio real: Thiolax. Esse é o remédio que Téo rouba para manter Clarice dormindo durante todo o livro quando a moça está agitada ou apresenta qualquer vontade ou possibilidade de fugir. Meu problema é que o autor colocou em palavras que Téo roubou “três ampolas”. Primeiro: uma ampola após aberta precisa ser descartada porque o remédio perde o efeito em contato permanente com o ar. Acho que o que ele queria de fato dizer era “frasco”, apesar do remédio também estar disponível em comprimidos, como qualquer busca revela. Segundo: Esse remédio não iria durar muito sem estar em ambiente de clima controlado, a.k.a. geladeira. Terceiro: As três ampolinhas nunca acabam! O moço sempre tem um estoque inesgotável, pior do que balas de revólver de mocinhos de Hollywood.

Depois de toda essa crítica só me falta contar o final, te poupando assim de ter que ler o livro. Clarice termina paraplégica e com amnésia (tão fácil fazer isso para que a história termine do jeitinho que você quer, heim Raphael?), casada com Téo (que nada sofre e também não é investigado apesar dos claros furos da história que conta aos policiais) e grávida de uma menina, que tem por ideia nomear Gertrudes. Esse final me faz pensar que o livro é apenas uma grande piada do autor, sabendo que publicaria qualquer merda e venderia horrores se apenas tivesse o trabalho publicitário (e pagasse booktubers e blogs) elogioso o suficiente…

 

 

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One thought on “Livro: Dias Perfeitos (Raphael Montes)

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