Livro: O Homem Duplicado (José Saramago)

0107.jpgDá-me por vezes a vontade incontrolável de por em escrito um texto tão repleto do vocábulo rico na língua lusitana quanto aqueles escrevinhados por Saramago outrora. Pois o autor além de grande gracejo com as palavras em seu significado mais oculto ainda encontrava espaço para a dedicação às mesóclises e ênclises com afinco para esculpir suas sentenças com alto grau de cultivo.

Mas eu não sou Saramago e você vai ter que se contentar com o meu caos aportuguesado. O caos é a ordem por decifrar.

Tertuliano Máximo Afonso é um professor de história de quase 40 anos, separado e que passa seus dias sem muitos hobbys. Um colega da escola onde trabalha, professor de matemática, nota a depressão em que Tertuliano se encontra (a que este chama de marasmo) e recomenda um filme qualquer que o distraia dessa situação. T.M.A., sem pensar demais, acaba acatando a sugestão, mesmo não sendo muito dado aos filmes, preferindo os livros. Aluga “Quem porfia mata caça” e o assiste sem muita atenção à princípio. Quando acaba o filme algo fica martelando em sua cabeça até que passando a fota novamente percebe que um dos atores secundários apresenta uma estranha semelhança com ele mesmo. A descoberta o perturba e faz com que fique aficionado à ideia de descobrir quem é esse sujeito igual a ele. Aluga todos os filmes da produtora até encontrar em um o nome que indica a primeira pista do que se desenvolverá: o homem se chama Daniel Santa-Clara.

Que fique aqui registrado que essa história não trata de gêmeos perdidos (Dona Carolina Afonso, mãe de Tertuliano, só teve um filho), nem de sósias (os dois são idênticos, mais do que gêmeos o seriam, tendo até as digitais iguais) e não é ficção científica (nunca será revelado a contento como o impossível aconteceu de nascerem duas pessoas realmente iguais em tudo). Pode ser que seja um romance passado apenas na cabela de um desses dois personagens, ou tudo pode ser explicado de fato se você aceitar o impossível como real, mas há mais de uma camada a acessar em se tratando da história que Saramago apresenta. Outros personagens de importância são o narrador que “enrola” seu leitor enquanto seus personagens perdem minutos para pensar (um recurso muito inteligente, vamos dizer) e o Senso Comum, esse que tenta aconselhar baseado em um média populacional qual seria a atitude a tomar por Tertuliano frente a essa situação, que em verdade é também nova para o senso…

Tertuliano e Antônio Claro (que é o verdadeiro nome do ator) se encontrarão, como era o desejo primeiro do professor de história, mas esse encontro não trará alívio e sim a tensão no desenvolver que acaba por envolver terceiros em um jogo inesperado entre o original e a cópia (e eu não vou dizer quem é cópia e quem é original porque essa é uma das questões de suspense do enredo). Tertuliano tem uma relação sem muitos laços afetivos com uma moça chamada Maria da Paz, enquanto Antônio é casado com Helena. Enquanto Tertuliano prefere nada contar sobre a estranha história que se desenrola para a namorada, Antônio vê sua esposa sofrer um verdadeiro ataque de nervos com a descoberta de um homem em tudo igual ao marido no mundo. As mulheres são as verdadeiras vítimas do combate entre esses dois. Mesmo ambos vivendo em uma grande cidade, onde não se encontrariam novamente se assim não quiserem, o mero saber da existência de que há alguém circulando que é em tudo igual a você, um outro eu, é insuportável.

O final do livro tem ares de thriller hollywoodiano, o que não estranha a adaptação de 2013 canadense chamada “Enemy” com Jake Gyllenhaal no papel de protagonista. Pelo que vi o final do filme assume outra percepção e conclusão dos acontecimentos, então não é exatamente igual ao livro. Não tenho nenhuma vontade de ver esse filme, entretanto, pois quero ficar com meus personagens bem portugueses na cabeça.

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