Livro: É Isto Um Homem? (Primo Levi)

0106.jpgVendo a lista dos livros do Desafio Literário em um geral, nunca pensaria que “É Isto Um Homem?” (“Se chesto è un uomo”, no original em italiano) estaria incluso. Digo isso porque não havia me deparado com biografias ou obras do gênero antes por ali. Parecia que só haviam obras estritamente de caráter ficcional. Mas olha que não!

Essa não é uma nova leitura. Na verdade, li o livro quando estava na faculdade de Relações Internacionais, mas não lembro se fazia parte da bibliografia de fato de alguma matéria ou se algum professor sugeriu a leitura durante alguma matéria relacionada à Segunda Guerra Mundial. O fato é que antes dessa introdução na faculdade nunca antes havia ouvido falar sobre Primo Levi, mas as reflexões do autor sobre o Holocausto me acompanharam por longo tempo e mudaram a maneira como enxergo o sofrimento passado por seres humanos em um contexto tão particular.

Primo Levi era químico e pertencia a um movimento rebelde ao fascismo quando foi capturado e mandado para um campo de concentração na Alemanha. Ainda era bastante jovem para sobreviver à seleção inicial que mandou a maior parte dos judeus com quem viajou para o extermínio sumário. Levi é mandado para Auschwitz e tem que se adequar a sua nova realidade. Seu nome é substituído por um número, os objetos que leva no corpo são todos aqueles que possui (uma camisa, o paletó listrado, as calças, os sapatos de madeira desconfortáveis e a gamela onde é servida a sopa aguada). Quem não consegue se adequar ao regime particular que impera no campo, tanto por parte dos oficiais quanto as normas de conduta dentre os diversos grupos de judeus e prisioneiros, vai morrer. Aqueles que sobreviveram não exatamente são os que mais fortes eram, mas em uma símile mal engendrada de Darwin, exatamente aqueles que melhor se adaptaram. A comida diária era escassa e deficiente em nutrientes, mas dentre os prisioneiros se desenvolveu todo um sistema de trocas que equivalia a um mercado do pouco pão e sopa que eram distribuídos. As pequenas rebeliões às regras, como colocar jornais dentro dos sapatos, também acabam se mostrando essenciais para a sobrevivência. Quem segue demais as regras estritas dos oficiais também não sobreviverá longo tempo.

Levi narra com extrema clareza e sem enfeites a realidade do ano em que perdeu sua identidade, quase esqueceu seu nome substituído por um número e viu grande maioria dos que entraram com ele morrer. Muitas vezes a vontade de viver é colocada como o principal meio para distinguir aqueles que sobreviveram dos que se foram, mas o autor nega qualquer dessas afirmativas dando inúmeros exemplos que contradizem qualquer teoria que o leitor possa querer formar. Muitas vezes é a pura sorte de não estar em um lugar X ou Y quando algum fato aconteceu que salva o protagonista, ou o fato de ter um amigo em quem confiar nas noites em que nenhum dos poucos pertences estavam à salvo.

Primo Levi começou a escrever o livro em estratos separados narrando episódios desconectados logo após a liberação de Auschwitz pela tomada russa. O livro não trata com profundidade, mas é perceptível a chamada culpa dos sobreviventes, a sensação de inadequação e falta de ligação com aqueles que não vivenciaram fatos tão particulares e extremos e de culpa por ter sobrevivido, sem saber muito bem porquê, quando todos morreram. Vale aqui dizer que o autor morreu aos 67 anos após cair de uma sacada no prédio em que morava, suscitando dúvidas se foi um acidente ou suicídio.

Nessa semana em que se lembra o Holocausto como tentativa de reprimir novas incursões humanas por campos tão odiosos e em que o presidente da nação de maior poder do mundo anuncia com palavras de ódio a construção de um muro que segregue um certo tipo de seres humanos de outro tipo, é bom reler e relembrar as priores faces que um ser humano pode tomar e suas piores atitudes.

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