Livro: Dois Irmãos (Milton Hatoum)

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Pois então. Estava eu de boas na lagoa, sem essa leitura no programa, quando a rede glóbulos me anuncia que iria lançar uma série em Janeiro sobre Dois Irmãos. Bateu aquele desespero: VOU TOMAR SPOILERS! Foi aí que tive que correr atrás do livro e passá-lo na frente. E foi uma leitura muito fácil, em que concluí a história em três dias. (Rede glóbulos, você perdeu mais uma vez, MHUAHUHUAHUA!)

É difícil precisar quem é realmente o protagonista da história. Poderia dizer que são os “dois irmãos” do título, mas na verdade o enredo parece utilizá-los como certo instrumento, sem ser de fato focado com preferência neles. Quem narra a história é Nael  (mas só descobrimos seu nome lá pelo final da história), que sempre morou no quartinho dos fundos da casa dos patrões de sua mãe. Nael será testemunha de alguns fatos sobre os moradores da casa, mas aprende muito mais pelas bocas de Halim, o patriarca, e Zana, a matriarca, quando esses dois chegam ao final da vida. Ao mesmo tempo, Nael procura descobrir qual é a ligação que ele e sua mãe, Domingas, têm com a casa principal, de quem Nael é claramente filho de alguém.

Halim e Zana são dois imigrantes libaneses que chegaram à Manaus em épocas distintas, se conheceram no restaurante do pai de Zana e se casaram. Halim estaria contente em ter apenas a companhia da esposa jovem e tão fogosa quanto ele, mas Zana, especialmente após perder o pai, queria filhos para encher a casa. Primeiro chegou Domingas, uma índia órfã que serve como empregada da casa (aquele terrível costume brasileiro de pegar uma “menina para criar” e na verdade ela ser uma escrava), depois chegaram os gêmeos Yaqub e Omar e, por fim, Rânia.

É bem claro no decorrer de todo o livro o quanto Zana privilegiou o gêmeo mais novo, Omar, chamado também de Caçula. A mãe se desdobra em quinhentos afagos e elogios ao menino e, como não poderia deixar de ser, o garoto cresce sem muitas lições morais ou qualquer desejo de ser um membro útil da sociedade. Já Yaqub, que sempre fora preterido, guarda a mágoa de todos os tratamentos injustos que recebeu, especialmente a viagem forçada que teve que fazer aos 13 anos para o Líbano após uma briga com Omar por causa da vizinha que ambos paqueravam. Yaqub fora ferido e traz a cicatriz em forma de meia-lua no rosto devido à inveja do irmão, mas a punição maior recaiu exatamente sobre ele porque a mãe não conseguiria se ver longe de seu queridinho. Anos depois o rapaz volta, mudado e desligado da família, buscando sem pressa a vingança contra o gêmeo.

Omar e Yaqub são personalidades bem distintas e, o mais interessante, Yaqub é bem mais parecido com a personalidade da mãe, pensando bem antes de realizar qualquer ato. Esse amargor quanto ao passado está presente em ambos, mas se expressa de forma diferente. Omar é explosivo, violento e passional, enquanto Yaqub é perigoso de outra maneira, silenciosa e compenetrada. No meio da guerra dos gêmeos, sobra para todos ao redor o ônus das perdas.

Apesar da história versar muito sobre esses dois personagens, como disse, não consideraria eles os únicos protagonistas. Zana e Halim são também muito bem retratados em suas muitas frustrações com o desenrolar dos fatos, assim como a calada Domingas, uma sombra triste correndo pelos cantos da história, mas com um papel de importância atrelada à briga dos irmãos e a Nael. Rânia é, talvez, a personagem mais apagada. Sua trajetória é também um tanto estranha, com inúmeras insinuações de incesto com os irmãos.

A história mistura bem os momentos de narração, às vezes voltando a algum ponto mais no passado, às vezes indicando o que aconteceria a alguns anos, como se alguém realmente contasse ao leitor sobre essa família. Em certos momentos lembra “Cem Anos de Solidão” com o brilho de uma família que se constrói e depois seu declínio. Em outros é algo muito brasileiro, cheio de referências culturais do norte do país e desses imigrantes que chegaram ao país. Um livro, enfim, muito gostoso de ser lido, apesar de não trazer temas tão fáceis de serem deglutidos.

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