Cinema: Dans ma peau (2002)

mv5bmtk0mdm4mjmyml5bml5banbnxkftztcwmde2mjuymq-_v1_[CUIDADO: Esse post/filme pode ser triggering para pessoas que sofrem/sofreram de cutting, auto-mutilações e transtornos obsessivos.]

Vamos falar de filmes chocantes.

Como você já deve ter notado pelos posts anteriores, o simples filme de terror em que sustinhos randômicos capitaneados por uma música não me satisfazem. Buscando histórias mais fortes, já vi muito filme difícil de deglutir. É só falar que pouca gente conseguiu terminar, que pessoas saíram do cinema e que foi proibido em algum país que eu estou lá, me propondo o desafio de terminar e fingir que tá tudo bem e que posso dormir calmamente de noite. Foi assim que vi os filmes da série “A Centopeia Humana”, “A Serbian Movie” e “V/H/S” (esse último ainda quero rever as três instâncias, porque adoro o formato de histórias curtas).

Foi assim também que caiu nas minhas mãos “Dans ma peau” (Em Minha Pele, em bom Camões), um filme francês de 2002 sem manifestações do oculto, sem espíritos zombeteiros e cujo terror gira em torno apenas da psiquê humana e suas estranhas compulsões.

Esther (Marina de Van, que é também diretora e roteirista do filme) é uma mulher comum, que trabalha com afinco, foi recentemente promovida, é bonita, tem uma relação estável amorosa com Vincent (Laurent Lucas) e amigos. Tudo correndo normal e dentro das expectativas. Até um dia em que Esther, em uma festa na casa de amigos, acaba sofrendo um acidente e cortando a perna. O corte é profundo e Esther acaba precisando de pontos, mas o que é estranho é que durante a festa mesmo ela não nota o corte, não sente a dor. A partir desse ferimento, Esther acaba desenvolvendo uma relação estranha com a própria pele e sua forma e textura, repuxando-a, explorando-a. Um dia no trabalho, Esther se isola e corta a pele, pouco acima da ferida original. Nesse primeiro momento a personagem parece chocada com a própria atitude, contando-a aos mais próximos. Com o tempo esse comportamento vai se intensificando. Esther começa a se isolar cada vez mais, a buscar ficar cada vez mais tempo só explorando as feridas, não conseguindo se concentrar em nenhum aspecto das relações sociais ou do ambiente de trabalho, pensando unicamente (e gastando horas de fato) em cortar e manipular as feridas e a pele, só assim obtendo um certo gozo e calma.

2É a história especialmente de uma obsessão de alguém que nada tinha de tão extraordinário na vida e acaba encontrando uma espécie de válvula de escape para qualquer tipo de emoção. Bem como outros transtornos obsessivos, Esther tem medo que descubram o que está fazendo e esconde as marcas na medida do possível. Ela não parece querer parar de fazer, entretanto, respondendo com evasivas violentas aos questionamentos quando confrontada. Dá para perceber o quão prazeroso é a calma masoquista que essa personagem encontra nesses momentos.

O filme é perturbador em mais de um sentido. Apesar da descrição acima fazer assim parecer, só em um primeiro momento é utilizado o recurso visual para instruir sobre o que a personagem inflige ao próprio corpo. Em momentos posteriores do filme, bem aqueles em que a coisa já evoluiu de maneira aparentemente irreversível, a câmera costuma se distanciar da ferida, focando no rosto da personagem, destacando os sons grotescos da ação.

Sabe que havia dito que já vi aquela listinha toda de filmes considerados chocantes? Pois bem, costumo segurar bem o olhar para a tela mesmo nos piores momentos, mas nesse filme me vi mais do que o normal olhando para outras áreas, pedindo pelamordedeus que aquela cena terminasse logo para eu poder relaxar. Preces que não foram atendidas e muitas vezes o que havia era só mais uma sequencia interminável após outra.

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