Cinema: Surfwise (2007)

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“Surfwise” é um documentário (e eu nem sabia que tinha documentário na lista dos 1001 filmes) sobre Dorian “Doc” Paskowitz, sua família e seu modo de vida alternativo.

Imagine um judeu surfista que se formou em medicina em Stanford, clinicou por vários anos até uma posição de bastante estabilidade, casou-se três vezes e em um belo dia resolveu adotar uma nova filosofia de vida, largando trabalho e sociedade para lá para viver em um trailer viajando e surfando pelos Estados Unidos, criando os nove filhos (!) naquele trailer e vivendo para a filosofia concebida que levaria a um estado de saúde superior. Esse é o excêntrico Dorian.

Dorian conheceu o surfe aos 13 anos e se apaixonou pelo mar e pelas ondas. Nos anos seguintes, tornou-se um aficcionado pelo esporte. O irmão de Dorian o descreve como uma pessoa singular e é visível que há certa mágoa na relação entre os dois devido a alguns fatos, além da grande admiração pelo espírito tão diverso dos outros homens judeus da época. Após a faculdade, Dorian se estabeleceu no Havaí e dentro do grupo dos médicos era também uma exceção, trabalhando com empatia e tratando surfistas de graça. Dois casamentos se seguiram sem sucesso e, apesar de ser visto como um “winner”, um vencedor, pela cultura média americana, Dorian se percebia muito triste, perdendo a saúde dos tempos de vida sobre as ondas em um consultório. É nesse ponto que Dorian decide vender tudo e partir em uma viagem de busca pelo mundo, passando por Israel (onde apresenta o surfe pela primeira vez) e, segundo suas palavras, aprendendo a fazer sexo até o retorno aos EUA, onde conhece Juliette.

Juliette embarca na onda de Dorian e os dois saem em um carro pelos EUA, começando assim a longa vida nômade que os tornou conhecidos. Passando a viver em um trailer a família começa a crescer, com a adição sucessiva de oito meninos e uma menina: David, Jonathan, Abraham, Israel, Moses, Adam, Salvador, Navah e Joshua. A partir daí, grande parte do documentário é narrado por essas crianças, que foram fruto de muita curiosidade na infância e suas relações com o pai.

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Há uma dualidade clara no comportamento de Dorian quanto às crianças e fica claro que Juliette, a mãe, não tinha muita participação nas escolhas da família, estabelecendo um papel de submissão que nem sempre a contentava, mas a que ela acatava. Dorian ditou as regras: a falta de controle sobre as atividades dos filhos; a comida controlada, sem açúcar e gordura de qualquer tipo; a obrigação de que todos eles surfassem; o fato de não terem em nenhum momento uma educação formal ao crescerem e a necessidade de seguirem a filosofia de vida formulada por ele.

Enquanto tudo parecia controlado quando as crianças não podiam fazer suas próprias escolhas, ao crescerem elas se revoltam com o controle duro do pai e a falta de possibilidade de escolherem outros modos de vida. Sem nunca terem posto os pés em uma escola, não se apresentam as mesmas oportunidades que apareceram para o pai, além da violência física constante quando o pai se via contrariado. E é claro que isso causa revolta e separações. Dorian sempre gostou de ostentar a visível saúde dos filhos e isso atraiu a atenção de curiosos, que também estavam olhando quando a grande debandada dos filhos aconteceu. A partir daí, é observar a fragmentação, os problemas que cada um deles teve que enfrentar soltos no mundo a que não reconheciam pois nunca estiveram realmente inseridos nele. O senhor idoso de 84 anos (na época da filmagem) que é Dorian parece não ter a noção do tamanho do ódio e da admiração dos filhos, que ocorre de forma contínua, ainda visualizando-os como os “filhotes” (ele chama-os dessa maneira mais de uma vez) que ele adestrava e querendo-os por perto seguindo sua filosofia.

É um documentário que aborda de modo mais superficial as razões desses conflitos e prefere mirar suas lentes para a dinâmica quebrada após os acontecimentos e o papel de importância do protagonista para a difusão do surfe e de um estilo de vida mais conectado à natureza. Não me interessei pelo tema à princípio, mas é bom notar que esse não é um filme sobre surfe, apesar de ter o esporte como cenário de importância. É um filme muito mais focado nessa visão particular de Doc e em como aqueles que a viveram por 20 anos a percebiam e percebem.

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