Livro: Gabriela, Cravo e Canela (Jorge Amado)

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Continuando no meu mini-projeto dentro do Desafio Literário, concluí a leitura de mais um livro tupiniquim.

Vou confessar que não esperava gostar de qualquer coisa de Jorge Amado porque aqui em casa sempre escutei que era um autor imoral (clutch your pearls!), que só escrevia sobre sexo e safadezas. Pois que não. Jorge Amado foi uma leitura interessante do começo ao fim, seus personagens bem construídos e o cenário de Ilhéus muito interessante, sem contar em uma narrativa que realmente te traz para dentro do livro e da época (anos 20) e local.

A história começa em um dia bem movimentado na pequena Ilhéus, um dia em que Nacib perdeu a cozinheira do Bar Vesúvio (que acabei de descobrir que existe de verdade na não-literária Ilhéus!!). No mesmo dia, um crime que choca a população: Jesuíno mata a mulher e o dentista, lavando a honra com sangue, como era pressuposto os homens fazerem para não ficarem com fama de corno. Mundinho Falcão retorna à cidade com novidades do Rio de Janeiro e a intenção fortalecida de se tornar um político local, enquanto Ramiro Bastos vê com maus olhos esse interesse do exportador em se meter no controle que sempre fora seu. E Gabriela, retirante da seca e sem sobrenome, chega à cidade produtora de cacau, com seu perfume de cravo e cor de canela.

Gabriela irá se tornar a cozinheira de Nacib e o romance dos dois se desenvolve enquanto a cidade começa a presenciar os primeiros sinais de mudança, com a chegada de engenheiro para abrir a barra e permitir a exportação direta da cidade, fruto dos esforços de Mundinho, que vai ganhando apoio dos fazendeiros e coronéis e seus votos por consequência. A história se desenvolve sempre em torno desse um ano de tantas mudanças estruturais, políticas e culturais na cidade, em que as mulheres começam a clamar por seus direitos, fato muito representado pela figura de Malvina, que não se contenta em ser uma mera esposa e parideira de filhos, enquanto os homens tudo podem e fazem nessa terra. Gabriela, que tem o espírito livre e infantil, serve para reforçar a noção de não-adestramento, mantendo-se como é apesar das inúmeras tentativas de Nacib de forçá-la a assumir o mesmo padrão considerado honrado das outras mulheres. É como se Nacib tentasse forçar a mulher em uma gaiola e o relacionamento se parte quando isso acontece. Só quando o árabe aceita a liberdade de Gabriela é que ambos voltam às boas. No campo político, a violência persiste, mas os velhos métodos de coerção são ultrapassados e com o tempo vão cair por terra. Ilhéus se abrirá às novidades por toda a parte no tempo de cerca de um ano em que a história é contada.

Como disse, foi uma história muito boa, em que eu sentia o sol na pele e o sabor dos quitutes de Gabriela enquanto lia. Não, não é uma leitura “desavergonhada” como sempre me fizeram crer, e sim uma leitura que flui do começo ao fim, tem cara de verão e sabor de pimenta.

P.S.: Não se guie pelas novelas globais. Gabriela não sobe em telhado nenhum para pegar pipas nesse livro.

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