Livro: 1984 (George Orwell)

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(Tô quase equiparando os posts ao tempo presente, faltam só dois livros! Regozijai-vos!)

“1984” deve ter dado um trabalho desgraçado para escrever. Ele com certeza vai te dar um trabalho mental complexo para entender em toda sua maravilhosidade. Fechar o livro sem se fazer as perguntas básicas sobre como seria controlar o próprio processo de aprendizado e questionamento, sobre a mentalidade por trás da dominação de massas e as chances de rebeldia em um sistema tão complexo quanto o formulado é um baita desperdício. Há sim uma história com personagens, um romance inclusive, mas isso parece servir ao propósito maior de realmente construir essa distopia tão opressiva e apresentar essa forma de pensar.

Winston Smith é um membro do Partido que controla a Oceania. Ser do Partido não lhe concede nenhum direito especial, apenas o coloca no que seria uma espécie de classe intermediária entre os proletas e o núcleo do partido, quem realmente dá as cartas. Vivendo em uma eterna guerra contra Eurásia ou Lestásia, a Oceania é controlada pelos princípios do Socialismo Inglês (Socing) e Winston é um funcionário do Ministério da Verdade (Miniver), onde passa seus dias editando jornais e outros documentos antigos para que eles se adequem à realidade de seu tempo. Winston vê, então, a realidade moldando o passado todos os dias e se pergunta se é o único que ainda tem memória. O livro começa com esse personagem já cometendo um ato de rebeldia, ao adquirir um diário e começar a escrever seus pensamentos ali. A partir de então Winston já se considera um homem morto, sabendo que a polícia do pensamento irá alcançá-lo a qualquer momento. E como eles saberiam dessa contravenção? Bom, em todos os lugares os habitantes da Oceania são seguidos por teletelas, que além de transmitir informações para o ambiente captam imagem e som de volta para a central, onde técnicos estarão lhe espionando, esperando para ver seu passo em falso.

Só a certeza da prisão, de fato, poderia levar com que algum tempo depois Winston acabasse por se envolver com Julia, com quem terá um romance também proibido, pois até o amor foi abolido nessa sociedade. Além disso, Winston crê que O’Brien, um membro do núcleo do partido, é um rebelde com conexões com o suposto grupo secreto que existiria na Oceania, comandado por Goldstein, o inimigo do Estado e do líder. O líder da Oceania tem a interessante alcunha de Grande Irmão e segundo O’Brien ele nunca morrerá, o que leva a questionar se ele está vivo, se ele ainda existe ou se é apenas a figura usada para unificar o poder do Partido (o que é o mais provável).

Até a metade do livro somos introduzidos à esse ambiente sufocante, onde nunca se está sozinho, nem mesmo dentro da própria cabeça. Também é apresentado o novo passo na trajetória do país: a criação da Novalíngua, um idioma que extinguiria boa parte das palavras “desnecessárias” do inglês, deixando apenas aquilo que fosse essencial para a comunicação. Sem as palavras necessárias para um pensamento rebelde, as novas gerações nunca pensariam em qualquer tipo de subversão (e você já pensou que assim como não conseguimos pensar em novas cores além das que já conhecemos, não poderíamos pensar em conceitos subjetivos se esses termos não existissem?). O duplipensamento é a grande reviravolta no modo de pensar. Duplipensar subverte qualquer lógica, pois destrói as bases do pensamento científico e dos contrastes, da negação e afirmação, fazendo com que dois pensamentos opostos convivam e se reforcem mutuamente. É possível então dizer que 2+2=5 porque assim é, sem questionamentos por trás, sem descrença no que lhe foi dito. As crianças já parecem estar no caminho do doutrinamento, mas os adultos, como Winston, ainda se lembram do mundo antigo e precisam ser re-doutrinados, ensinados a amar o Grande Irmão, mesmo se sua condenação for a morte.

O livro é uma crítica ao fascismo e ao comunismo como praticado na data de concepção da obra, assim como “A Revolução dos Bichos”. E de novo eu sinto que tenho que reiterar que Orwell era de esquerda e o que ele estava criticando não era o socialismo em si, mas a política de Stalin, que em mundo lembra a figura do Grande Irmão onipresente nos muros de Oceania.

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