Livro: O Senhor dos Anéis (J.R.R. Tolkien)

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Na primeira vez que li “O Senhor dos Anéis” eu tinha 14 anos. Minhas lembranças não eram exatamente as minhas mais felizes na literatura. Lembro que me empolguei na “Sociedade do Anel” e no final do “Retorno do Rei”, mas “As Duas Torres” foi uma jornada que pareceu infinita, um tanto tediosa por todo o caminho. Guardei, então, alguns lampejos de partes de que eu gostava muito misturado com partes que não entendia porque estavam lá. Assistir os filmes não desfez essa impressão. Tudo estava de acordo com a lembrança, mas alguma coisa não clicava e havia outros contos de fantasia bem menos celebrados de que eu gostava bem mais.

Passados mais de dez anos, aqui estava eu de novo, com uma cópia novinha e minha (e agora volume único!), comprada em promoção na bienal, e o desafio de reler as suas mais de 1000 páginas conciliando com a faculdade. “O Senhor dos Anéis” precisava de um plano de ataque para não esmorecer, então me comprometi a ler ao menos um capítulo por dia (e conforme o nível de interesse em alguns dias lia bem mais do que isso).

“A Sociedade do Anel” é a parte da história que corre com a maior leveza. Reencontramos os hobbits do Condado, em sua ignorância infantil do que ocorre no mundo dos homens grandes. Bilbo está velho e cansado, “esticado como manteiga sobre pão” é como ele se sente após anos sendo o portador do anel. Sob os argumentos de Gandalf, o cinzento, decide deixar o anel para seu herdeiro, o sobrinho Frodo, e partir para Valfenda. Frodo se torna o portador e é sob sua posse que será desempenhada a maior aventura que os Pequenos viverão, quando for revelada a real natureza do poder que rege a preciosa joia. Medidas têm de ser tomadas com urgência e Frodo segue com alguns bons amigos para o que é inicialmente só uma missão para decidir o que será feito junto aos elfos de Valfenda e se torna uma verdadeira busca suicida pela garantia de paz e não dominação de toda a Terra Média. Mas não há como mandar as “crianças” sozinhas contra orcs, trolls, magos corrompidos pela sede de poder e homens cruéis. Para garantir o sucesso da empreitada uma equipe é montada para seguir um bom trecho da viagem. São eles o rei sem trono Aragorn, o homem de Gondor Boromir, o elfo Legolas, o anão Gimli, o mago Gandalf e os quatro hobbits do Condado, Peregrin (Pippin), Meriadoc (Merry), Samwise e Frodo.

Em “As Duas Torres” acompanhamos a partir do momento em que a sociedade do anel se desfaz, tanto por pressões internas quanto externas, e os personagens se dividem em narrativas paralelas, seguindo destinos simultâneos e diversos. A torre de Mordor, onde se encontra Sauron planejando sua guerra, e a torre de Isengard, onde está Saruman e sua própria indústria bélica, se dividem e dão nome a essa parte. Nessa parte é introduzida também um dos povos de que eu mais gosto na história (e sei que essa opinião não é muito popular): os Ents. Não dá para definir bem o que eles são, além de dizer que possuem toda a sabedoria da natureza e do tempo acumulado e da melancolia de uma espécie com poucas esperanças de sobreviver. Rohan, a terra dos cavaleiros à oeste, e Gondor, o grande reino de fronteira com Mordor, começam a ensaiar a aliança que logo se concretizará para tentar impedir os exércitos de Sauron. Enquanto isso, Frodo e Sam se unem ao bipolar Gollum, o único que pode lhes auxiliar a encontrar um caminho para dentro das terras sombrias. Mas o Fedegoso tem seus próprios planos para se livrar dos “hobtises” e recuperar o precioso.

“O Retorno do Rei” amarra todos os caminhos antes traçados. Os hobbits atingem a Montanha da Perdição, muito mais devido à força e ao amor inabaláveis de Sam do que por contribuições de Frodo, que só usa todas as suas poucas forças para resistir ao poder do anel. Em Gondor a guerra finalmente estoura e Aragorn recupera o seu posto de direito por sangue e valor. Como no “Hobbit”, o fim que deveria ser o seu felizes para sempre se demonstra pouco mais sombrio do que o esperado, com os hobbits voltando mudados e crescidos (Pippin e Merry bem literalmente) para um Condado que também pouco tem a ver com a terra pacífica e intocada que deixaram para trás e não esperavam recuperar. Enquanto os outros três vivem uma vida saudável e plena, Frodo é assombrado pelas lembranças de sua terrível jornada e sente-se impelido a seguir com os elfos para as terras além do mar (o que quer que isso signifique para você e para mim).

Nesse mês de leitura que levei para terminar a obra-prima de Tolkien reparei em mais coisas do que a primeira vez, Apesar do livro continuar não constando como número um em minha lista de fantasias, consigo enxergar toques que valorizam pequenos pedaços bem pensados pelo autor para não entregar o enredo de maneira muito fácil ao leitor.

A magia na obra é sempre sutil. Mesmo os magos não entendem completamente como algumas coisas foram criadas, inclusive os anéis de poder. É comum que nessas partes o anuncio do mágico seja feito por um “e Frodo pensou ter visto” ou “imaginou ter sentido” e suas muitas variantes que não indicam com certeza a existência de sobrenatural, mas apontam para essa direção. A própria natureza das paisagens por onde passam indica esse pedaço de vida e consciência sobre-humanas entranhadas. Uma árvore pode muito bem deixar seus galhos caírem de forma maternal no Condado para dar sombra aos cansados, enquanto outra árvore da mesma espécie em uma floresta em meio à território inimigo lhe arranha e “parece te encarar” com olhos malvados. A natureza, aliás, é fator que indica a periculosidade e o caráter “malvado” dos locais. Enquanto o Condado é verde, puro, limpo e ensolarado, Mordor é uma terra negra, infértil e poluída, onde o céu nunca mostra a luz do sol. Por todo o caminho dos personagens, essas descrições detalhadas de que tantos se queixam lançam um holofote sobre a característica dos povos que nele habitam e mostram como o norte ainda se encontra preservado da influência cruel de Sauron (pelo menos por mais um tempo).

Há poucas mulheres por toda a narrativa, uma coisa que sempre me pareceu anômala. Dessa vez, acho que pude entender que Tolkien devotava ao gênero feminino como um todo um sentimento de adoração. Com exceção para as hobbits, as mulheres que aparecem ao longo da história possuem uma certa aura de magia natural, uma beleza indecifrável e em sua constituição estão fundidas o papel de mães e deusas, mas não de objetos sexuais, como uma espécie de Nossa Senhora em cada alma feminina. Galadriel, Arwen, Fruta D’Ouro e mesmo Éowyn na parte final assumem essa característica como natural. Tão natural quanto os hobbits guardam a inocência infantil e são as “crianças” da Terra Média, as mulheres são personificações do sagrado.

Vamos esperar pela próxima década para mais uma releitura.

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