Livro: Madame Bovary (Gustave Flaubert)

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“Madame Bovary” era uma das leituras que eu mais queria repetir. Ainda era adolescente quando li pela primeira vez e havia passagens imensas de que eu ainda me recordava com muita nitidez. O romance faz parte daquele grupo de livros sobre os quais já falei aqui: o clube das mulheres do século XIX que morreram depois de traírem os cônjuges.

Para quem apenas escutou falar do livro exaustivamente mas ainda não leu, deve ser uma baita surpresa começar o livro conhecendo, na verdade, Charles Bovary e toda a sua vida, seus estudos de medicina e seu primeiro casamento e viuvez antes de começar a conhecer a protagonista que vai capitanear a história a partir da segunda parte. O encontro de Bovary e Emma Rouault se dá por ocasião de um acidente com o pai da moça na fazenda em que vivem. Charles fica cada vez mais apaixonado pela moça e, sob as condições certas, acaba por se casar com ela.

Emma passou a juventude em um convento, lendo romances açucarados, cheios de amores arrebatadores, fugas desesperadas na noite e cartas apaixonadas trocadas sob a luz das estrelas. A vida com Charles, entretanto, não é nada semelhante aos seus sonhos juvenis. Uma noite na mansão de um marquês só serve para lembrar Emma que a vida poderia ser mais rica em excitações do que seu cotidiano campestre e sem novidades. Charles aparenta estar totalmente satisfeito com sua vida rotineira, especialmente agora com uma esposa nova e tão bonita em casa. Por Emma, entretanto, topa se mudar para uma cidade maior e refazer todo seu leque de pacientes. É em Yonville que nascerá a filha do casal, Berthe. O nascimento da menina não anima Emma tanto quanto ela esperava e ela se vê aguardando impaciente o amor que surgirá. Por algum tempo parece que seus flertes com Léon Dupuis, um jovem da cidade, vão tornar essa esperança em realidade, mas ambos têm seus pudores e a coisa não vai adiante, com Léon saindo da cidade para estudar.

Rodolphe Boulanger aparece como novo pretendente. Rodolphe não parece tão apaixonado quanto Léon parecia e, em verdade, só deseja levar Emma para a cama, conquistar aquela beleza para ele por um tempo e depois deixá-la no ponto em que haviam começado. Mas Emma vê em Rodolphe a garantia da fuga do tédio e a concretização da paixão que ainda não sentiu, se entregando de cabeça a um sentimento que ela mesmo inventa. E para manter esse amor e seus desejos, Emma passa a gastar somas enormes de dinheiro e contrair dívidas pesadas para presentear Rodolphe e planejar sua fuga. É claro que isso não vai acabar bem e a mulher vai cair numa depressão pavorosa, da qual só sai em definitivo quando acha um recipiente para seu amor. Um acaso faz com que se reencontre com Léon, o que levará a mais um ciclo de paixão inventada e gastos expressivos de dinheiro. O final do livro unirá uma torrente de tristezas e desgraças para os Bovary e nenhum deles, nem mesmo Berthe, sairá sem máculas do destino que acaba por cair.

Sinceramente, Emma não é um personagem “gostável”. Não que ache que ela não tenha motivos para se revoltar na sociedade que sempre a enclausurou em quatro paredes (as do convento, as da casa do pai e, depois, as da casa do marido) de que só conseguia fugir lendo, mas suas atitudes fazem com que em um todo não haja muito simpatia. Emma ama o amor, ama se pensar uma heroína de suas novelas e o conceito por trás da paixão que faz perder a razão. Ao mesmo tempo, Emma rejeita a filha por não ser tão bonita quanto gostaria, por não ser um menino, por não ser algo saído da ficção. E isso na verdade é um reflexo dos mesmos sentimentos que sente por Charles. Charles é um homem comum e tudo o que Emma desaprovaria é o comum. Ela suportaria a pobreza extrema ou a riqueza infinita, desde que houvesse emoções diárias, como se ela estivesse esperando reviravoltas a cada dia. Em boa parte, o que acontece é que a Madame Bovary fabrica suas próprias paixões para sentir qualquer sentimento, amor, ódio ou desprezo, e dar vazão a essas expectativas pregressas e depois ela não consegue superar a fantasia e encarar a realidade de sua vida e seus limites.

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2 thoughts on “Livro: Madame Bovary (Gustave Flaubert)

  1. Emma é uma personagem que teria tudo para ser uma mulher a frente de seu tempo, é inteligente, tem potencial para independência, mas desperdiça a si mesma em uma vida de devaneios. Ela possui uma mente perspicaz, mas ao invés de usa-la ela prefere mergulhar na fantasia do que seria um homem ideal, um filho ideal, um amor ideal buscando um exagero de sensações que só exite na literatura. Ela pode muito bem ter sido uma critica as mulheres da época, mas continua absurdamente atual. Ainda hoje temos mulheres que desperdiçam seu potencial em busca do romance de novela ou do amor de filme. Que buscam a vida de conto de fadas ao invés de viver e por isso passam seus dais frustradas por não alcançar o ideal de felicidade que aparece nas telas de cinema. Por não ter vivido “aquele” amor cujo beijo faz ouvir “aquela” trilha sonora de fundo… Neste sentido é um romance perturbador porque conheço muitas Madame Bovary

  2. Pingback: Retrospectiva 2015 | Meu Logbook

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