Cinema: Que Horas Ela Volta? (2015)

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Yay! Finalmente assisti “Que Horas Ela Volta?”, o filme brasileiro de que todo mundo está falando.

Vendido como um olhar sobre os problemas da imensa desigualdade brasileira, o filme aborda muitos pontos dessa relação escravagista que ainda existe entre patrões e empregados e da percepção de que há castas sociais veladas. Sob o discurso de “quase é da família” afetuoso se esconde, na verdade, o racismo e classicismo que permeiam a sociedade desse nosso país tão dado a contradições.

Val (Regina Casé) deixou a própria filha no nordeste, ainda pequena, para servir de empregada e babá em uma casa em São Paulo. O menino de quem cuidava, Fabinho (Michel Joelsas), tem em sua figura a mãe afetuosa que a própria mãe biológica não é. Val dedicou a ele o carinho que não poderia dar à filha, a quem não vê faz dez anos. E a rotina é quebrada quando Jéssica (Camila Márdila) anuncia para a mãe que prestará vestibular em São Paulo e pergunta se pode ficar com ela, não sabendo à princípio que Val mora no emprego. Jéssica faz parte de uma juventude mais socialista, que questiona esses laços escravagistas e as incongruências do tratamento dos patrões em relação aos empregados. Val fica chocada com o comportamento da filha, que não abaixa a cabeça para as normas não escritas e impregnadas na relação entre a casa grande e o quartinho de empregada. Quando é oferecido alguma coisa, Jéssica não recusa “por educação” e aceita e dado a oportunidade ela demonstra que seu esforço pessoal e interesse conseguem cobrir as falhas de sua educação para que ela alcance um futuro bem diferente daquele de sua mãe. Talvez a frase mais marcante seja quando Val a acusa de andar de nariz em pé, como se fosse melhor do que todos ali (inclusive os patrões) e Jéssica fala que não se enxerga como melhor, só não se vê como pior. E Val conseguirá enxergar, no final, um pouco do ponto de vista da filha.

Há muitos quadros em que a sala de jantar é vista pela fresta da porta da cozinha, onde Val escuta sobre o que se passa na casa e espera pelas ordens. Ali e o quartinho são os únicos cômodos a que Val pode acessar sem a sensação de estar trespassando um território, apesar de viver na casa há mais de dez anos. Regina Casé consegue atuar na medida para transmitir certa comicidade a alguns hábitos que pareceriam estranhos para alguém que não tenha nascido nessa nossa realidade tão dual e assim consegue tornar claro a estranheza e fazer questionar quem nunca pensou sobre as estruturas da sociedade.

Um ponto a ser levantado: nenhum cinema do subúrbio parece estar exibindo o filme, pelo menos no Rio de Janeiro. Para vê-lo a pessoa teria que se deslocar até a Barra ou a Zona Sul, onde os ingressos costumam ser mais caros, além da tarifa da “viagem”, sendo ela feita de carro ou ônibus. Parece assim que as pessoas que mais se identificariam com o questionamento estão excluídas porque as distribuidoras acham que o povo não gostará ou saberá entender o filme que se vende como arte. Mais uma vez um ranço de classicismo…

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