Livro: The Collector (John Fowles)

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Primeiro de tudo: esse livro não tem nada a ver com o filme “O Colecionar de Corpos”. Ele tem muito mais a ver com “O Silêncio dos Inocentes” e muito de semelhança com “The Tempest” do Shakespeare (que foi o único livro do trovador inglês que eu li na vida).

Caindo nas mãos do acaso de novo, essa foi a obra sorteada pelo random.org para ocupar mais uma semana das minhas férias/greve. Não sabia muito o que esperar e me peguei grudada ao kindle, devorando a obra.

O livro é dividido em três partes, se passa na Inglaterra e tem um forte odor de anos 60/70, com o começo da liberação feminina, os movimentos questionadores às guerras e a expressão de novas faces da arte. Frederick Clegg é um homem solitário que mora com a tia e a prima inválida. Com pouca educação formal, Frederick passa seu tempo livre colecionando borboletas (e tem especial preferência pelas anomalias) e observando Miranda Grey, uma jovem de 20 anos, estudante de arte. Esse fascínio estaria destinado a nunca dar frutos para Frederick, não fosse a sorte lhe sorrir e ele ganhar uma bolada na casa de apostas. Cabeça vazia é oficina do diabo e agora que Fred não precisa se preocupar com dinheiro é certo que boa coisa não vai acontecer com Miranda.

Quando a tia e a prima do protagonista viajam para a Austrália para visitar alguns parentes, o colecionador começa a nutrir com mais atenção uma ideia que já rondava sua cabeça a algum tempo. Nessa primeira parte, Frederick vai narrar em um tom que mescla desculpas com fatalismo os eventos que seguem para que ocorra a captura do espécime mais valioso de sua coleção, com a compra da casa isolada e das reformas no subsolo para acomodar uma Miranda bem diferente da que ele esperava encontrar. A ideia inicial de Frederick era manter a jovem sua prisioneira até que ela nutrisse afeto por ele. Mas fica claro para o leitor logo no início que essa é uma mentira que ele está contando para si mesmo e para Miranda.

Frederick gosta de passar seus dias observando Miranda e mesmo ela se mostrando desagradável com ele, menosprezando-o constantemente e negando a visão romântica que ele tinha dela, o raptor permanece enamorado de sua imagem. Miranda, por sua vez, não entende o que afinal ele quer com ela. Passado o medo do estupro que parecia certo, a estudante entende que ele tem algum problema que torna desagradável o mínimo contato com ela. O que ele busca é uma relação platônica, acreditando com sinceridade que sua presença converterá a jovem à substância de sua imaginação. E claro que isso não vai acontecer.

A segunda parte do livro é o diário de confinamento de Miranda, em que podemos saber mais sobre sua vida antes do encarceramento forçado, sobre suas relações tumultuosas com a mãe, a saudade da irmã e a amizade-com-algo-a-mais com um homem mais velho, um artista a quem Miranda respeita enormemente e de quem reproduz ensinamentos e diálogos inteiros. Na terceira parte voltamos à narração de Frederick, com sua visão mais uma vez repleta de evasivas em consideração ao final de seu relacionamento com a jovem e uma nova oportunidade terrível que começa a se delinear.

Seria uma história assustadora e muito mais interessante para mim se não houvesse no todo um sentimento de crítica velada às classes mais baixas da sociedade. A visão expressa muitas vezes é de que a classe trabalhadora nunca chegaria ao refinamento intelectual das classes mais abastadas, mesmo quando oferecidos os meios para se educarem e ascenderem. O que fica implícito é a noção de superioridade dessa classe alta (mesmo quando em ruína) em relação à classe baixa em ascensão. Por vezes as opiniões de Miranda me causavam asco e a noção de que o raptor era essa força do proletariado que queria ser visto como igual à Miranda, superior e bela, sem nunca o poder o ser era um problema que em nenhum momento foi resolvido na obra.

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