Pessoal: Como eu passei em Medicina (ou: tudo o que você não deveria fazer, mas eu fiz)

Sim, passei de Medicina em uma das melhores faculdades federais do Brasil na primeira tentativa, sem fazer cursinho e vagabundeando horrores no ano em que fiz vestibular. Posso jurar que não comprei a vaga e não fiz voodu com meus concorrentes, viu? Nem sou mais inteligente que ninguém aí fora não! (O que o primeiro período no curso fez questão de jogar na minha cara todos os dias…)

Então, vamos separar isso aqui por etapas e aí eu consigo explicar tim-tim por tim-tim o que aconteceu.

– Educação pregressa: 

Não nasci em berço de ouro. Minha família é de classe média e moramos no subúrbio. Ainda assim, meus pais sempre fizeram da educação uma prioridade. Na minha casa, não estudar ou não passar em uma federal não eram opção.

Entrei no maternal com dois anos e aprendi a ler e escrever antes dos seis anos. Era uma dessas escolinhas de fundo de quintal, mas me ensinou muito bem o bê-a-bá. Aos seis, quando minha mãe foi procurar escolas para me colocar, apenas um aceitou fazer uma prova de alfabetização para permitir minha entrada com seis anos, enquanto os outros colégios recusaram porque só aceitavam alunos com sete anos, no mínimo. E foi nesse colégio que eu fiquei até o final do meu ensino médio, apesar da qualidade do ensino ter caído muito nesse meio tempo…

Sempre fui da turminha CDF. Até porque eu era muito tímida (e ainda sou), preferia passar mais tempo lendo no meu período fora da escola e sempre me dava bem nas aulas. Era aquela aluna de 9 e 10 e chorava quando tirava nota ruim. Só havia uma disciplina em que não era boa e em que não me incomodava notas ruins: educação física. Era uma criança quietinha, que escrevia poesias e histórias, que gostava de brincar de boneca e de fazer os trabalhos de casa, mas só estudava para as provas na véspera. Lembro que nas férias de verão entre a terceira e quarta série, peguei um livro que havia sido usado pelos meus irmãos na quarta série e fiz todos os exercícios. Ora, se eu sabia ler poderia fazer os exercícios só lendo. E foi isso que fiz. Minha mãe me chamava de “menina caxias” nessa época e eu era mesmo. Esse amor por matemática e lógica dura até hoje e eu mesma fico surpresa de não ter seguido uma carreira de exatas.

O ensino médio fornecia a escolha entre técnico de informática, enfermagem ou administração. Ainda não sabia o que queria fazer da vida e acabei escolhendo a mesma coisa que minhas amigas e meus irmãos, seguindo o fluxo. Fiz técnico de informática.

Quando tinha oito anos minha mãe me colocou no inglês, junto aos meus irmãos. (E de novo teve aquela questão de idade, mas lá pelo meio do curso…). Terminei os estudos da língua na adolescência, acho que com 15 ou 16 anos e continuei a escutar muita música e a ler muitos livros na língua para não perder o contato. Entrei em seguida no espanhol e, quando terminei, no francês, que eu sempre quis aprender. Acho que na época do francês eu já estava no pré-vestibular.

Meu ensino médio foi uma piada naquele colégio. Professores que não sabiam muito bem o próprio conteúdo que ensinavam, alunos que acabavam por exigir avaliações bem rasas e, para completar, no meu terceiro ano a escola estava passando por uma crise que culminou com o fim dela e os professores não estavam recebendo, então também não davam aula. Por isso, acabei não tendo, por exemplo, Segunda Guerra Mundial na escola. Terminei com 17 anos e completamente despreparada para o vestibular.

– Pré-vestibular(es):

No final do terceiro ano, já sabendo que não iria ser suficiente o preparo até ali, fiz prova para receber desconto em um pré-vestibular local. Como era uma prova de lógica e eu era boa em lógica eu tirei a pontuação máxima e recebi 90% de desconto. Pagava 37 reais por mês e ainda assim hoje acho que era muito. O curso não era dos melhores, apenas revisava a parte mais superficial da matéria e não tinha aquela carga de exigência que deveria haver.

Naquele ano eu tentei vestibular para Odontologia. O vestibular ainda era separado, cada universidade fazendo o seu próprio. Passava nas primeiras fases e me ferrava em química, então acabei não passando em nada.

No ano seguinte entrei em outro pré-vestibular, daqueles com várias filiais, aulas especiais sábados para alguns vestibulares mais concorridos e por aí vai. Nesse ano já havia mudado de ideia quanto ao curso e tentava para Relações Internacionais, com preferência para a UFF porque o curso era de manhã (o da UFRJ era noturno) e já tinha duas turmas. Esse curso tinha simulados constantes e neles todos os alunos de todas as filiais eram ranqueados de acordo com o curso que queriam. Finalmente aprendi os conteúdos como deveria ter aprendido na escola. Em casa, tirava aos menos duas horas para exercitar os conteúdos de química, física, matemática e biologia, mas devo confessar que história e geografia, que eram minhas específicas, eu estudei apenas na semana da prova. Gosto de viver perigosamente, acho…

Obtinha sempre uma boa classificação nesses simulados. Acho que no último fiquei em terceiro na classificação de RI e acabei selecionada para fazer aulas de graça aos domingos na sede na Tijuca. Passava a semana inteira estudando, com aulas sábado no Projeto UFRJ e domingo, no qual eu acordava cinco horas da manhã para poder chegar às sete na Tijuca para a aula da Turma X.

Dessa vez passei em todos os vestibulares que tentei: Ciências Sociais na UFRRJ, História na UERJ, Relações Internacionais na UFRJ e na UFF. Cheguei a faltar a uma segunda fase, acho que da Unirio, porque não precisava mais ir. Foi uma época muito alegre, todo dia era uma felicidade por uma aprovação diferente. E aí, com 19 anos, eu comecei a faculdade de RI.

– A mudança de curso: 

E se passaram cinco anos e eu estava formada. Durante o curso ainda entrei no alemão. Mesmo achando que tinha um currículo bom, não achava estágios. Cogitei fazer a prova do Itamaraty, mas passar anos dependendo que meu pais pagassem mais de 3000 reais em um preparatório para a prova parecia um desaforo.

Além disso, no final do curso já não tinha certeza se era aquilo que eu queria. RI parecia muito distante do objeto de estudo. A torre de marfim era uma realidade no curso: professores se especializavam em lugares e contavam sobre pessoas com as quais nunca tinham tido contato, defendiam os fracos e oprimidos de suas coberturas, sem precisar se misturar com o povo a que tanto afirmavam adorar. Meu TCC foi só um reflexo disso e minha nota, baixa para os padrões do curso de humanas, refletia minhas 30 páginas de saco cheio. Eu queria ajudar a sociedade, mas eu queria estar em contato com ela. Minha ética pessoal me impedia de falar por terceiros como se realmente soubesse de suas vidas, limitando meus resultados à hipocrisia acadêmica em humanas, em que a masturbação intelectual é altamente recomendada.

Tentei alguns concursos públicos e processos de trainee. Nos processos de trainee eu sempre chegava às dinâmicas de grupo, mas minha timidez me impedia de me destacar. Além disso, sempre fui de ouvir mais que falar e isso me atrapalhava pois não sabia interromper as ideias ruins dos outros e me impor. Havia o problema ainda de estar concorrendo com as crianças de ouro desse país, aqueles que tiveram condições financeiras de ir para os melhores colégios, de frequentar os círculos mais influentes e fazer intercâmbios que eu não teria como bancar.

Nas provas de concurso público, não me preparava antes e os materiais eram caros. Ainda assim, quase fui aprovada em alguns. Lembro de um que pagava 15 mil e eu só não passei porque errei uma pergunta, tendo inclusive gabaritado a parte de direito chutando apenas o senso comum. Minha cara fazer esse tipo de coisa… E assim passou o ano de 2013 e eu tinha 24 anos.

– 2014 e os ventos da mudança:

Minha mãe sempre me incentivou a me levantar e tentar de novo se não estivesse me sentindo feliz onde estava. Ela me deu a certeza que ela e meu pai estavam lá para me apoiar. E foi isso que fiz. Recomecei.

Lá por março eu comecei a cogitar fazer o vestibular novamente. Andei olhando as provas do ENEM e elas não me pareciam metade tão difíceis quanto os vestibulares pelos quais passei.

Não parei nada do que fazia. Ballet, francês, aulas de direção, as traduções de dramas coreanos e meu horário de sono: tudo continuou do jeito que estava. A única coisa que acrescentei foi a revisão dos assuntos de ensino médio e, ainda assim, só biologia, física, química e matemática. Tirava umas três horinhas toda tarde, enquanto estava vendo novela para reler as matérias e fazer muitos exercícios. Quando achei que estava no caminho certo refiz todos os ENEMs dessa “nova geração” para sentir como era a prova.

Dá para acompanhar aqui no blog que eu li 60 livros ano passado, além de ver muitas séries e filmes. No mês da Copa ainda tive a desfaçatez de tirar todo o mês de “folga” e assistir a todos os jogos.

Quando abriram as inscrições do mestrado ainda achei que nada tinha a perder e me inscrevi também. Fiz um projeto de mestrado correndo e estudei todo o conteúdo em uma semana. A entrevista final da seleção do mestrado caiu na mesma semana do ENEM. Soube que havia passado antes de fazer as provas e as realizei com tranquilidade porque o Plano B já estava cumprido. Se não passasse, tanto faz, ainda havia ao menos o mestrado garantindo que 2015 não seria a mesma vagabundagem de 2014. Mas eu ainda queria o desafio da medicina…

E aí chegaram as provas do ENEM. E depois as notas. Para minha surpresa, minha menor nota foi em Humanas, aquele ramo de estudo em que acabara de ser aprovada para o mestrado. Ri horrores disso, mas acho que todos aqueles exercícios de física e química valeram à pena. Minha maior nota foi redação (980) e a segunda maior foi matemática. Acho que meu cérebro sempre vai ser o daquela garotinha que pegava livros de séries avançadas para estudar matemática…

Não daria para passar no primeiro semestre, foi o que pensei. Com minha média final eu não conseguiria passar na UFF e na Unirio, mas considerando os pesos diferenciados da UFRJ para alguns campos de estudo dava para obter uma média melhor. Claro que não fui selecionada na primeira chamada, mas eu já havia estudado os anos anteriores e sabia que muita gente nem se tocava que havia a lista de espera. Fiquei nela, esperando os resultados, mas quase com a certeza que passaria para o segundo semestre. Para mim, ainda melhor. Um semestre eu teria para frequentar as aulas de estudos estratégicos, ganhar uma bolsa financeira legal e depois migrar para a medicina se não tivesse gostado. Lembro que tinha que ir numa terça-feira fazer a matrícula no mestrado, mas na segunda saiu uma dessas reclassificações e, para raiva de alguns e comemoração de outros, a menina de humanas estava na medicina.

– O primeiro período:

Houve muitas mudanças nesse começo de ano. Para começar, nem parece que se passou só um semestre, parece que a M1 já foi um ano inteiro.

Resolvi que não era mais tempo de ficar quietinha no canto, vendo o que me desagrada sem nada falar e me poupando da vida porque não quero arriscar. Entrei no krav magá, arrumei confusão com veteranos, metade da turma não gosta de mim e para mim está tudo suave na nave. Nada me incomoda nem o vento me atrapalha.

Fiquei seis anos sem ver química, física e  biologia e a vitória dessa metade de ano foi provar para mim mesma que eu sei que tenho capacidade para mais, que é possível vencer sem desvios éticos, sem colar nas provas ou brigar com professores porque você não recebeu a nota que queria. Eu queria um desafio, eu o recebi. Não há porque reclamar agora.

Claro que encontrei muita gente que está na medicina apenas pelo status ou porque papai e mamãe queriam, o que eu acho uma pena, mas o que se há de fazer? Alguns terão que aprender com a vida que ela não dará oportunidades de cola e que se você não gosta de pessoas, se você não tem a mínima empatia, talvez não devesse trabalhar em contato direto com elas.

Talvez a maior lição tenha sido para parar de estudar de véspera. Não dá certo nesse curso, apesar de ter dado certo até aqui. 🙂

Tive que parar o ballet por causa do horário apertado, logo no semestre em que começaria a usar a sapatilha de ponta. Espero ter tempo para voltar nesse segundo semestre. Aí sim serei uma pessoa completamente feliz.

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