Filme: Going Clear – Scientology and the Prison of Belief (2015)

Going_Clear_Poster

Soube desse documentário por um site de fofocas (sim, também leio muita cultura inútil) e na hora me interessei. Going Clear tem causado um baita fuzuê nos EUA, onde a Cientologia nasceu e é mais forte, por levantar questões já discutidas no livro de mesmo nome de Lawrence Wright. É baseado no depoimento de pessoas envolvidas em diferentes níveis com a organização e que fugiram em diferentes momentos. going-clear-scientology-and-prison-belief-2015-1

A primeira parte do filme conta sobre o surgimento da religião e o envolvimento dos entrevistados nesse período nascente. Cientologia é um culto que nasceu da mente de um homem: L. Ron Hubbard, um veterano americano com questões psicológicas muito mal resolvidas, que via na construção de uma religião a combinação ideal para solucionar seus problemas de auto-estima, de traumas passados e uma maneira muito efetiva de ganhar dinheiro. Hubbard estudou algumas religiões e ideologias, em que se baseou para criar um esquema de “aperfeiçoamento” pessoal que nunca acabaria. Como dizem no filme, quanto mais você sobe na escada, mais você entra na cabeça de seu criador e mais depressivo você se torna, já que não há como fugir de um padrão de sofrimento ao se constatar que mesmo quando você está “limpo”, você ainda não se sente perfeito. O mais engraçado é que quanto mais você evolui, mais conhecimento lhe é revelado e mais você percebe como tudo é uma armação sem sentido ou lógica (só vou dizer: micro-aliens invisíveis dentro do corpo), mas aí você já está tão afundado na sociedade que não dá mais para questionar ou sair.

Na segunda parte, vemos o crescimento da Cientologia nos anos 70, com a entrada de boa gente que realmente acreditava nas benesses prometidas (anos 70, meu povo, vamos dar um desconto). Hubbard sentiu seu ego crescer na época, ensimesmado com a perspectiva de se tornar um deus para aquele povo. Foi no período que ele criou a Sea Org., o braço mais extremo do culto, que exige dedicação pessoal total. Essa expansão se estendeu para Hollywood, onde Hubbard viu a oportunidade de propaganda do culto através dos famosos que debutavam (leia-se principalmente John Travolta e Tom Cruise nas décadas posteriores). A maneira de condução da religião, baseada numa pseudo-ciência e pseudo-psicologia, também é abordada nessa parte.

Com a morte de Hubbard, a liderança foi tomada por David Miscavige, que ampliou a simbologia, a arrecadação forçada de dinheiro sem prestação de contas, os abusos já existentes (inclusive tortura e quebra de laços familiares em vários níveis) e começou com os ataques diretos a todos aqueles que se opunham ao culto e àqueles que haviam se distanciado, prática que se mantém muito forte atualmente, inclusive tentando prejudicar o lançamento do documentário e seus entrevistados.

Há um segmento dedicado à importância que Miscagive deu aos famosos já mencionados, especialmente Tom Cruise, seu amigo pessoal e que realmente se crê o príncipe da religião. São fofocas já conhecidas há alguns anos, mas ditas por pessoas que eram muito próximas de Miscagive, então ganham maior credibilidade. É dito que John Travolta até chegou a cogitar abandonar o culto após saber das condições de vida de uma amiga sua que abandonou a religião, mas havia tantos segredos seus guardados e que o prejudicariam se expostos que o ator desistiu e hoje é um refém da constante promoção da cientologia.

Não há nada de muito novo no que o documentário aborda, ao menos para mim. É como se fosse um apanhado de coisas que quem está de fora já conhece, mas quem está dentro fecha voluntariamente os olhos para não ver ou se sente acuado pelo círculo que os cerca a ignorar. Pode parecer, por vezes, que a realidade retratada está muito distante, afinal a cientologia parece uma excentricidade gringa. Entretanto, o modo de convencimento, suas simbologias de grandeza e a promessa de uma melhora efetiva de vida pela crença estão bem mais próximos do que pode parecer.

Ampliando ainda mais a questão, sempre acho perigoso quando qualquer um aceita um sistema (pequeno ou grande) sem o menor questionamento das engrenagens que movem a máquina, confiando apenas na palavra e nas boas intenções de desconhecidos. Esse filme serve para me mostrar, mais uma vez, que é (e deveria ser sempre) impossível aceitar sem questionar o que é dito e que meu pensamento não funciona muito bem com dogmas. Enquanto eu sentir que estou incomodando quem não quer responder minhas perguntas de forma clara, estarei caminhando pelo trajeto certo.

P.S.: O episódio de “South Park” sobre cientologia foi a primeira vez que ouvi sobre isso e continua sendo a melhor forma de explicar como funciona. O nome do episódio é “Trapped in the Closet”.

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