Livro: The Death of Ivan Ilyich & Other Stories (Leo Tolstoy)

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Quatro pelo preço de dois! Na minha listinha dos 1001 livros para ler antes de morrer apareciam duas histórias de Tolstói que em um livro meu são contados como contos do autor. Esse meu livro aqui ao lado contêm quatro histórias e eu achei que seria um despropósito muito grande ler apenas os contos listados quando poderia reler tudo de uma vez. As histórias curtas do desafio são “The Death of Ivan Ilyich” e “The Kreutzer Sonata”.

Family Happiness (A Felicidade Conjugal):
Essa não é uma das minhas histórias preferidas, mas aprecio que ela parece flertar um pouco com “Anna Karenina”, também do autor. Há alguns pontos que a protagonista Masha e Anna parecem partilhar, como o casamento cedo com homens bem mais velhos e o desejo pela vida social efervescente de bailes, peças de teatro e introdução aos círculos de importância, além da clara predileção por relegar um pouco o lado materno para atender esses anseios juvenis, o que é altamente compreensível quando vemos que ambas não tem conhecimento necessário para negar um casamento na idade que tinham devido a inexperiência. No começo vemos a construção dos sentimentos românticos entre o casal e no final a desconstrução desse amor para que possa se erguer o amor materno e paterno que forma a família tradicional. Esse pensamento faz parte da filosofia pessoal de Tolstói, que por meio da boca do marido exprime o que considera ser a sabedoria do crescimento pessoal e da posição marital em oposição à vaidade juvenil e seus arroubos.

The Death of Ivan Ilyich (A Morte de Ivan Ilitch):  
Morreu Ivan Ilyich e antes mesmo de sabermos quem ele é vamos conhecendo como aqueles que, em tese, mais o estimavam encaram esse fato. Os colegas de trabalho pensam na promoção virá com o cargo vazio e o alívio, na sensação que aqui no Brasil poderíamos classificar com o clássico “antes ele do que eu”. A esposa de Ivan pensa em como garantir seus interesses, egoisticamente se referindo a seu próprio sofrimento durante a doença do marido. Sua filha está mais concentrada no próprio casamento que em breve se realizará e apenas o filho adolescente parece sentir com pesar maior a perda do pai.
Só na segunda parte da história descobrimos quem foi Ivan Ilyich, um homem que muito teve a pensar durante os últimos meses de sua vida. Ivan tenta lutar a todo momento pela própria sobrevivência, até o ponto em que começa a se questionar sobre a ausência de real felicidade em sua vida e os motivos que o fariam querer permanecer em tal estado. Um dos pontos mais irônicos é que Ivan anda nas mãos com o tema “respice finem”, que quer dizer “considere o fim” em latim, mas nunca pareceu realmente se considerar mortal até o momento em que o destino irremediável aparece batendo à porta. Como muita gente, Ivan sempre acreditou que a morte era assunto que acontecia aos outros e que ele poderia passar em brancas nuvens até quando lhe desse na telha morrer.
A juventude de Ivan foi como a de tantos outros jovens, sem reais preocupações e aspirações, seguindo os passos do pai e se divertindo horrores, para então casar e ter filhos, comme il faut, e parecer apagar essa página de sua vida. Aliás, destaco aqui um trecho que fala dessa época da vida de Ivan e de que gostei muito, pois mostra como mesmo em seu período mais “devasso”, Ivan não saiu muito do padrão esperado para sua classe e idade:

“Everything was done with clean hands, in clean shirts, with French phrases, and, what was of most importance, in the highest society, and consequently with the approval of people of rank.”

O sofrimento que a doença lhe traz revela o real desprezo que o protagonista sente pela mulher e a falta de conexão com os filhos. O grito que lhe sai da garganta por três dias que antecipam a morte revelam o tamanho da dor física e emocional que Ilyich sente ante o vazio que o aguarda e de que não consegue escapar.

The Kreutzer Sonata (A Sonata a Kreutzer):
Em uma viagem de trem surge uma discussão sobre divórcio e traição. A única mulher presente e seu companheiro argumentam que não há sentido no matrimônio sem amor continuar a existir, pois essa é a base da união do casal, enquanto um senhor conservador entende que o divórcio é imoralidade. Surge à tona o caso recente de um homem que matara a esposa que o traía e um homem grisalho entra na discussão para perguntar o que é afinal o amor e qual seu tempo de duração. Revela, então, que seu nome é Pózdnyshev e que é o protagonista da história do assassinato antes discutida.
Muito natural é o que acontece depois com o esvaziamento do carro e a permanência de apenas um homem, que será o ouvido da história que Pózdnyshev se sente impelido a contar em detalhes.
Como Ivan Ilyich, Pózdnyshev conta sobre uma juventude que poderia ser considerada imoral, mas faz parte do cotidiano de qualquer jovem homem em sua época e situação social. Suas idas aos bordeis, a libertinagem sexual completa e o contraste com a imagem de pureza contada para as mulheres é fato que muito o desagrada. O fragmento a seguir é também um dos meus preferidos, exatamente porque  conta algo que sempre encarei como fascinante nas obras clássicas – a figura imaculada do homem de sociedade frente ao comportamento sexual privado:

“And everybody knows this and pretends not to know it. In all the novels they describe in detail the heroes’ feelings and the ponds and bushes beside which they walk, but when their great Love for some maiden is described, nothing is said about what has happened to these interesting heroes before – not a word about their frequenting certain houses, or about the servant-girls, cooks and other people’s wives!”

Fala que não remete exatamente aos Mr. Darcy da vida e a aparente hipocrisia das narrativas românticas.
A única solução apontada pelo protagonista para resolver a questão do sexo e o do desejo é a abstinência sexual completa, mesmo que isso signifique o fim da humanidade. E mais uma vez, é a voz de Tolstói no fim da vida que escutamos dizendo esse pensamento.
Anyway, Pózdnyshev decide se casar e o eu dele futuro tece mais uma teoria completa do poder feminino de sedução por seus vestidos e pela pressão das mães de mocinhas. O casamento é repleto de brigas desde o começo, e qualquer sentimento fica turvado frente aos cuidados maternos da esposa com os 5 filhos que o casal tem. Quando o médico atesta que será prejudicial para a saúde da mulher ter mais filhos e a ensina a como evitá-los, é como se a pobre tivesse ganhado uma carta de alforria. Ela recupera a beleza de seus dias de juventude e, conforme isso ocorre, aparecem possíveis rivais amorosos para Pózdnyshev. Mais um em especial é marcante: um violinista que tem por costume tocar duetos com ela ao piano. E em uma reunião entre amigos ambos tocam a obra de Beethoven referida no título do conto e isso mexe com o protagonista de maneira especial. A música lhe transmite impressões e sensações que o fazem ter certeza da existência de sentimentos crescentes entre o par. Esse é com certeza um dos meus contos preferidos do autor, mesmo com a loucura de suas teorias misturadas ao desenrolar da história (ou por causa disso mesmo…).

The Devil (O Diabo):
Mais uma vez falando sobre a vida dos homens pré-matrimonial e como ele considerava o comportamento tido como normal como prejudicial e imoral, Tolstói conta essa história sobre um jovem que se muda para o campo para lidar com uma propriedade do falecido e endividado pai.
Eugène sente desejos sexuais e arruma por meio de um conhecido uma camponesa que aceite por um módico valor servir de “agente de saúde” para seu problema. A questão é que, mesmo ele negando, se afeiçoa a Stepanída.
Após o casamento com uma mulher que sua mãe e a sociedade em geral considerariam como adequada para seu papel social, Eugène passa a ser assombrado pelos encontros casuais com Stepanída pela fazenda e em sua própria casa. Ele tenta resistir à tentação de trair a mulher e vai perdendo a saúde mental tentando conciliar o desejo físico e a razão moral que o impede, mas vai perdendo a batalha por sua sanidade. Certa hora chega a pesar qual das mulheres deveria matar para se livrar do problema.
Há dois finais para esse conto: um que mantém a figura matrimonial de Eugène intacta e uma outra que destrói sua figura social, mas ambas as possibilidades são destrutivas ao personagem.
No meu livro, que tem uma introdução explicando um pouco os motivos de Tolstói por trás de cada conto, menciona-se que essa história é quase autobiográfica, sendo o “quase” a parte de tragédia não realizada no final. Então, toda essa teoria de Tolstói sobre o sexo, a abstinência e o casamento pode ser considerada fruto das batalhas mentais pelas quais o autor passou na vida, estando sempre entre o racional (a civilidade e o respeito a moral cristã) e o irracional (sucumbir aos desejos físicos e aos instintos), optando pela elevação da primeira na sublevação completa do segundo.

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2 thoughts on “Livro: The Death of Ivan Ilyich & Other Stories (Leo Tolstoy)

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