Livro: O Tempo e o Vento – O Arquipélago (Érico Veríssimo)

Sem título Com o terceiro tomo do terceiro livro termino a saga dos Terra-Quadros-Cambará. E que final com chave de ouro.

Nessa terceira parte a narrativa se divide em múltiplas faces, conversando o passado de Rodrigo e seus últimos dias de vida em Santa Fé, onde a família se reúne. O enredo começa muito centrado no figurão que é o ex-intendente, amigo de Getúlio Vargas e último dos grandes nomes da cidade que é Rodrigo Cambará, mas pouco a pouco o foco vai virando para o sempre calado Floriano, que esconde um universo de frustrações e observações sobre a família. Nada que não se espere de um escritor, o alter-ego do próprio Érico Veríssimo.

Santa Fé mudou consideravelmente. As famílias tradicionais estão em decadência tanto em poder econômico quanto político e cresce a influência alemã e italiana, imigrantes começam a dominar todos os comércios e no final inclusive tomam as rédeas do clube local, que até alguns anos antes não os aceitava como sócios.

Politicamente ainda estamos em épocas de instabilidade. Rodrigo dedica-se por um tempo a carreira política, tornando-se deputado federal e passa um bom tempo no Rio de Janeiro, então a capital. Há uma certa “sujeira” no Rio que condiz com um comportamento bem rodriguiano. É nesse meio que começa a amizade de Rodrigo e Getúlio Vargas também, homem que o Cambará defenderá com unhas e dentes mesmo quando em discordância. Em meio aos conflitos da candidatura para mais um campanha presidencial, entretanto, Rodrigo renuncia e volta para sua base em Santa Fé, da onde sai com uma Coluna Revolucionária, junto ao irmão Toríbio e do pai Licurgo. Mais tarde é Toríbio quem sairá sozinho, com a Coluna de Prestes pelo Brasil.

Em casa, Maria Valéria está também em guerra, só que contra os ratos e suas pulgas que espalham a peste, e Flora reza pelos homens e toma conta dos filhos Floriano, Alicinha, Jango, Eduardo e Bibi. Aliás, falando nessa criançada toda, quando comecei a ler essa parte estranhei um bocado de nada ter sido dito no “futuro” sobre Alice, a preferida de Rodrigo, mas logo a coisa faz bastante sentido… Há também as crianças “agregadas” da casa: Zeca, filho ilegítimo de Toríbio, e Sílvia, filha de uma viúva pobre e companheira de brincadeiras de Alice, portadora de uma fascinação enamorada por Rodrigo.

Quando Getúlio ascende à presidência, Rodrigo muda-se com a família para o Rio. Pelos pensamentos de Floriano dá para perceber que foi por causa disso que o núcleo familiar se dilui, fato agravado pela indiferença de Flora para com Rodrigo. O “arquipélago” faz referência a essas ilhas que se conectam por linhas tênues, de acordo com a concepção de Floriano. É a partir desse momento que Floriano passa a ser verdadeiramente o protagonista da história, quando passamos a entender sua repulsa e ao mesmo tempo paixão pela figura do pai e o amor proibido pela esposa do irmão. Rodrigo e Floriano compartilham não apenas da semelhante aparência, mas de alguns gostos, apesar das fortes tentativas do filho de se afastar de qualquer coisa que lembre o pai. Como justificar se não dessa maneira a paixão física de Floriano por Mandy Patterson, loira de olhos inocentes e lábios sensuais, quase um retrato físico de Toni Weber?

Os outros filhos parecem refletir lados separados do sangue Cambará: Jango é a parte ligada ao campo, sem sensibilidades ao povo e às artes; Eduardo é comunista, a parte de Rodrigo que lia filósofos estrangeiros e se engajava nas lutas em campo mundial, tentando fazer a diferença. É ele, inclusive, que carrega o punhal de prata nessa geração. Bibi é dada aos prazeres, não trabalha e foi criada sob o sol carioca, não sentindo nenhuma identificação com a cultura gaúcha. De certa forma ela é esse lado mais safado de Rodrigo, mas como é mulher tudo o que faz é motivo de censuras pela família. Zeca se torna padre, o completo oposto do que era o pai, e Sílvia parece destinada a ser mais uma das mulheres fortes dos pampas.

O livro termina com alguns diálogos confessionais, da mais absoluta sinceridade entre personagens vitais da trama, necessários para que eles possam finalmente tocar suas vidas e para que Floriano comece a escrever sua obra mais importante, a história de sua própria família que começa em uma noite de vento e com o nascimento de um certo Pedro Missioneiro…

Update: Reli e notei que esqueci de mencionar um dos meus personagens preferidos, quase meu equivalente filosófico no mundo literário! Roque Bandeira, o Tio Bicho, que com seus comentários sarcásticos e seu humor peculiar fazia as grandes discussões menos sérias e reduzia-as a sua devida importância, ressaltando com igual ironia os paradoxos dos dois lados das questões.

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