Livro: O Tempo e o Vento – O Retrato (Erico Veríssimo)

oretratodef

Finalizada a leitura da segunda parte da saga do tio Erico, cá estou eu novamente para escrever mais uma vez quão fabuloso o autor é. Para quem viu a série/filme que passou no plim-plim de nome “O Tempo e o Vento” quero contar primeiramente que fomos ludibriados. A história do cerco, de Bibiana e coisa e tal são só a primeira parte, aquela d’O Continente. Toda a segunda e terceira parte foram ignoradas na obra. Foi uma surpresa abrir o terceiro volume da minha coleção de sete livrinhos e achar todos esses personagens novos e histórias que eu nunca tinha visto serem contadas.

Há um salto no tempo logo no começo dessa segunda parte. Pulamos direto para o ano de 1945, ano de retorno de Rodrigo Terra Cambará a Santa Fé, vindo do Rio de Janeiro depois do fim do governo ditatorial de Getúlio Vargas. Se você esqueceu ou não sabia, Rodrigo é o filho mais novo de Licurgo Cambará que estava liderando a defesa do Sobrado nas partes mais modernas d’O Continente. O fofoqueiro da cidade adianta ao leitor alguns fatos da vida movimentada de Rodrigo, fatos que serão explorados na segunda parte do livro.

Depois desse salto para frente recuamos mais uma vez ao passado, testemunhando a chegada de Rodrigo depois do tempo de estudos de medicina (e muitas farras regadas a caviar e champanhe) em Porto Alegre. O pai e o irmão, Toríbio, continuam a tradição de se aterem ao campo e sentem-se muito mais confortáveis no Angico, a propriedade rural da família. Rodrigo parece um estranho no ninho, com suas roupas bem cortadas, seus perfumes, seus livros franceses, seus discos de ópera e seu gosto por tudo que é refinado e citadino. Sua chegada também marca a chegada da tecnologia e aos poucos Santa Fé vai assumindo uma cara que se assemelha mais aos gostos do recém-chegado, com luz elétrica, cinema e carros nas ruas.

Quando chega o doutor Rodrigo a situação política ainda é complicada. Existem duas facções de apoio aos dois candidatos à presidência, Rui Barbosa e Hermes da Fonseca, e os coronéis ditam as regras para a população votante conforme suas vontades. Titi Trindade é a figura temida, que mata seus inimigos políticos, e é também a pessoa contra quem Rodrigo bate de frente logo no começo de sua estadia.

Rodrigo começa a demonstrar logo nessas primeiras páginas sua personalidade passional, que interfere na história seja para o bem ou para o mal. Ao mesmo tempo em que deseja alcançar os princípios elevados de igualdade e democracia, Rodrigo se utiliza muitas vezes de instrumentos autoritários e não tem real afinidade pela massa pobre a que se afeiçoou nos livros teóricos. Ainda assim, acaba se tornando uma figura respeitada, tanto por causa de seu consultório médico em que atende de graça quanto pela postura de “pai dos oprimidos” que vai ganhando na vida pública e que cada vez mais o aproxima dos círculos políticos rio-grandense e nacional. É nos serões no Sobrado que ele reúne os amigos e em que se discute a situação do país. Interessante nessa parte foi notar nas figuras de dois oficiais do exército de posturas bem diferentes: o coronel Jairo Bittencourt e seu positivismo como solução para tudo e o tenente Rubim, defensor da intervenção militar e do controle da população por uma casta superior. “O Retrato” é alusão a um quadro pintado por um espanhol amigo do jovem Rodrigo, no auge dos seus tempos áureos, com a feição do dono do mundo, atitude que ele realmente representava.

Rodrigo eventualmente se casa com Flora Quadros, mais por um capricho nascido de sua personalidade imediatista do que por real sentimento. Provando mais uma vez sua contrariedade em quase tudo o que faz, Rodrigo revela sentimentos ainda mal resolvidos em relação ao pai e sua clara infidelidade que tanto fez sofrer Alice Cambará, mas ao mesmo tempo relaciona-se com uma amante sabendo que Flora sofre com isso. Já posso antecipar da terceira parte que a soma dessas atitudes acaba por provocar em Flora um profundo despeito e atitude fria e distante. Esse relacionamento paralelo acaba em uma nota musical triste que deixa o jovem Rodrigo em desespero, onde o deixamos no fim dessa segunda parte.

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