Livro: O Tempo e o Vento – O Continente (Érico Veríssimo)

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No começo foi “Clarissa”. Depois foi “Música ao Longe” e com 14 anos de idade decidi que meu autor brasileiro preferido era Érico Veríssimo. Dez anos se passaram, mas a conclusão permanece a mesma: igual ao Veríssimo pai não existe. E é por isso que no meu último aniversário juntei um dinheirinho e me dei de presente a coleção em sete volumes de “O Tempo e o Vento” da Companhia das Letras, preenchendo uma das lacunas do meu desenvolvimento literário ao ler a obra mais famosa do autor.

Primeiro tenho que salientar que me blindei para não receber spoilers da saga por muito tempo. Quando a rede glóbulos exibiu o seriado me burlei e sabotei qualquer oportunidade de assistir enquanto minha mãe acompanhava pela TV principal da sala. Ainda assim, entendi o que havia se passado até chegar ao capitão Rodrigo Cambará e seu envolvimento com Bibiana. A partir de então achei melhor me refugiar em um lugar isolado e, felizmente, consegui evitar o enredo a partir desse ponto.

Com os sete livrinhos (de 400 páginas cada) em mãos, inaugurei minha educação literária no romance histórico do autor. Desde o momento em que abri o primeiro volume e me deparei com o Sobrado pela primeira vez, não consegui mais largar a história. Ao suprir essa lacuna educacional e meu desejo de aprofundar o amor pelo autor, ganhei de brinde um maior conhecimento dos eventos passados no Rio Grande do Sul (e de certa forma em todo o interior brasileiro) durante o período imperial e os primeiros anos republicanos. E é nesses momentos que a gente percebe o quanto nossa educação formal deixou a desejar ao tratar tudo tão superficialmente e dar atenção apenas à capital e aos grandes eventos… Não tinha real noção de como foi conflituosa a formação da fronteira sul e da nacionalidade e valores particulares da região.

A História com H maiúsculo é construída pelos homens, os machos gaúchos que morriam em conflitos sucessivos, que se deitavam com mulheres de todas as raças e credos, entre os golpes de espada e goles de chimarrão, largando seus bastardos sem nome e suas viúvas sem sorte. Mas a história de “O Tempo e o Vento” centra-se naquelas que eram a força por trás da construção do povo: as mulheres que a tudo tinham que enfrentar, que criavam com cuidados esses meninos que mais tarde se perderiam em batalhas desnecessárias e nasciam para sofrer, que pariam meninas das quais sentiam pena apenas por existirem, para serem eternas escravas das vontades alheias. É a história de uma família, os Terra Cambará, mas o sangue desse clã está tão misturado à história dos pampas que é também a história do “continente” rio-grandense sendo contado.

Começamos no futuro, contemplando os galhos da árvore para depois conhecermos as raízes. Há uma divisão em três níveis. Os capítulos do “Sobrado” tratam dos membros da família cercados na base doméstica, esperando a capitulação dos inimigos federalistas ou o próprio fim após dias definhando e protegendo as paredes erguidas e as idéias políticas. No casarão, crianças que não compreendem o que vivem, velhos que já viram demais, moribundos fechados no escuro e uma mulher em trabalho de parto. Os capítulos principais e mais extensos dedicam-se a construção da árvore, contando-nos desde Pedro Missioneiro e seu romance com Ana Terra, passando pela formação da vila de Santa Fé – cenário principal da trama – e a chegada de um certo capitão Rodrigo Cambará, a força de Bibiana e o crescimento de Licurgo, que não nega o sangue a que pertence. Na terceira parte da divisão, relances em itálico da construção dos ramos paralelos da árvore e detalhes sobre personagens que apareceram ou aparecerão na trama.

Cada personagem tem lá seu grau de fascinação, mas não há como não ressaltar Rodrigo Cambará, Bibiana e Dr. Winter. Para mim, eles mostram essas três linhagens tão particulares que acabam por formar o espírito comum dos Terra Cambará e seus associados. Rodrigo faz parte dos homens da terra e em alguma medida é feito da mesma matéria que Pedro Missioneiro, carregando o solo em que nasceu na pele e nos modos. Não veio de família nobre, não tem sangue a que honrar de longas eras idas. Sua família nasceu daquele chão e ele se espalha como se fosse o herdeiro de todas aquelas terras. Bibiana é neta de Pedro e Ana Terra e em parte traz as origens indígenas, em parte o sangue do colonizador pobre. Sua força se constrói aos poucos na trama, mas uma vez formada parece indestrutível. Como a avó, vê no vento as mudanças bruscas que conduzem às curvas de sua vida. Dr. Winter é o imigrante alemão que recusa a se ver como cidadão brasileiro até perceber que não consegue mais sair daquele chão, seja por amor ou preguiça. Winter passa grande parte do livro como testemunha, recusando-se a interagir de verdade com a realidade da região, em aceitar-se como igual daquele povo rústico e sem história. Aos poucos escolhe seu lado e as guerras que precisará travar, abandonando o papel de mero observador da vida social e política.

Santa Fé é esse microcosmo do Brasil, das lutas entre ideologias políticas e dos poderes econômicos que comandam a vida do país. Também é um exemplo da miscigenação, da construção da identidade de povo único e da questão escravagista, especialmente na segunda parte do “Continente”. Misticismos e religião se confundem e as mesmas pessoas que vão à Igreja acreditam nas lendas de fortunas e bruxarias.

O livro termina com a conclusão do cerco do Sobrado, o toque animado dos sinos da igreja mesmo diante das perdas ocorridas durante conflito. E o minuano a soprar, recebendo a atenção da velha Bibiana, a única que realmente compreende o que o vento anuncia.

Estou lendo “O Retrato” e espero voltar em breve, contando sobre essa segunda fase da saga dos Cambará.

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