Livro: The Picture of Dorian Gray (Oscar Wilde)

A primeira coisa a dizer é que estou quase de férias do ballet! Por umas boas semanas e muitos sábados tive que renunciar a outros prazeres em função da apresentação de fim de ano do ballet, cujo tema foi Dom Quixote. Li pouco nesse período, muito mais preocupada com não cair no palco e não esquecer a coreografia na metade. Deu tudo certo! Os três espetáculos correram sem grandes falhas e o terceiro foi tão perfeito que todos nós queríamos fazer uma dancinha da vitória.

O segundo aviso é que vai rolar uma mini-pausa no desafio depois desse livro e daqui a alguns posts vocês vão entender porquê. Somando-se as duas coisas, acho que ainda dá para chegar aos 60 livros lidos esse ano. Não bate meu record, mas é um bom número redondo…

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Agora podemos falar dos 50 shades of Gray, esse menino traquinas.

Quem primeiro encontramos são Basil Hallward e Lord Henry Wotton, dois amigos que discutem sobre o objeto da última pintura de Basil, um jovem belo e de ares inocentes chamado Dorian Gray. Basil afirma que colocou muito de si mesmo no quadro, como se tivesse colocado uma parte de sua alma e, realmente, mais tarde veremos que ela foi sua melhor obra e depois dela ele não consegue pintar mais nada de bom valor artístico. Aliás, Basil parece verdadeiramente apaixonado por Gray e pede a Wotton que não o afaste dele. Lord Wotton deseja conhecer imediatamente o rapaz que suscita tantas emoções em seu amigo e a oportunidade surge ali mesmo, enquanto conversam.

Dorian é realmente um jovem fascinante aos olhos de Wotton e ambos se põem a conversar enquanto Basil dá as últimas pinceladas na obra. Lord Wotton tem uma língua afiada e o jovem sente rapidamente grande admiração por tudo o que ele diz. Quando os três veem o quadro, Lord Wotton afirma que um dia ela será uma grande mágoa para Gray. Quando ele não for mais belo, inocente e jovem, o retrato zombaria de sua velhice e de suas rugas eternamente. Gray é tomado por uma vaidade que nunca havia antes sentido e sela seu destino ao desejar com fervor que o retrato envelheça e ele permaneça sempre o mesmo.

Nos anos seguintes, Dorian aprofunda a amizade com Lord Wotton e é muito influenciado por suas opiniões, basicamente todas baseadas em paradoxos que o próprio Wotton não segue. Além disso, há um livro que Wotton sugere a Gray e acaba sendo quase uma bíblia de como agir. E o que era um rapaz puro vai se tornando pouco a pouco cada vez mais vil e insensível, mas mantendo sua aparência. Mesmo quando está com 38 anos, continua a parecer um rapazote de 20 com todo o futuro pela frente.

Ao contrário do que você pode achar após assistir “A Liga Extraordinária”, aquele filme B dos anos 2000, Dorian é fascinado pela pintura e gosta de assistir às transformações que vão ocorrendo no quadro. No final, mesmo quando parece estar havendo uma redenção, não ocorre em verdade mudança no personagem, que passa a agir apenas pelo egoísmo de suas experimentações, enraivecendo-se com resultados inesperados e terminando a história com uma nota justa.

Vejo muito de Wilde no próprio Wotton, o Rei dos Paradoxos, mas segundo os críticos ele está melhor espelhado no próprio Gray. Eu deveria ler uma biografia do autor para ver se ele era tão dado a profundas experimentações como Gray…

Deixo então o prefácio do livro aqui, como exemplo desses paradoxos e da defesa do autor de seu livro:

The artist is the creator of beautiful things.
To reveal art and conceal the artist is art’s aim.
The critic is he who can translate into another manner or a new material his impression of beautiful things.
The highest, as the lowest, form of criticism is a mode of autobiography.
Those who find ugly meanings in beautiful things are the cultivated. For these there is hope.
They are the elect to whom beautiful things mean only Beauty.
There is no such thing as a moral or an immoral book. Books are well written, or badly written. That is all.
The nineteenth century dislike of Realism is the rage of Caliban seeing his own face in a glass.
The moral life of a man forms part of the subject-matter of the artist, but the morality of art consists in the perfect use of an imperfect medium. No artist desires to prove anything. Even things that are true can be proved.
No artist has ethical sympathies. An ethical sympathy in an artist is an unpardonable mannerism of style.
No artist is ever morbid. The artist can express everything.
Thought and language are to the artist instruments of an art.
Vice and virtue are to the artist materials for an art.
From the point of view of form, the type of all the arts is the art of the musician. From the point of view of feeling, the actor’s craft is the type.
All art is at once surface and symbol.
Those who go beneath the surface do so at their peril.
Those who read the symbol do so at their peril.
It is the spectator, and not life, that art really mirrors.
Diversity of opinion about a work of art shows that the work is new, complex, and vital.
When critics disagree the artist is in accord with himself.
We can forgive a man for making a useful thing as long as he does not admire it. The only excuse for making a useless thing is that one admires it intensely.
All art is quite useless.

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3 thoughts on “Livro: The Picture of Dorian Gray (Oscar Wilde)

  1. Foi o primeiro livro do autor que eu li e o que me deixou uma impressão mais intensa. A forma como Dorian consome a si mesmo é tão impressionante quanto o modo como Peter Kien no livro Auto de Fé de Elias Canetti. Embora Kien não seja um hedonista sua falta de conexão outra pessoa que não seja ele mesmo o aproxima da tragedia de Dorian que não se conecta aos outros por absoluto egoismo.

  2. Pingback: Retrospectiva 2014 | Meu Logbook

  3. Pingback: Desafio Literário: #0001 ao #0050 | Meu Logbook

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