Livro: O Idiota (Fiódor Dostoiévski)

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O príncipe Liév Míchkin é um idiota. Ou pelo menos isso é o que todos dizem às suas costas (e algumas vezes até diante dele). Mas, calma, não priemos cânico. Idiota no livro é tomado pela acepção médica original relativa a um indivíduo abobalhado, incapaz de formular seus pensamentos de maneira completamente racional, portador de alguma deficiência mental.

O livro é dividido em quatro partes, sendo a primeira dedicada apenas à chegada de Míchkin à Petersburgo e seu primeiro dia. Aliás, que dia mais tumultuado é esse em que o personagem encontrará quase todos os personagens vitais à história. (Digo “quase” porque de alguns apenas ouvimos falar e encontraremos depois, e dois outros entram no decorrer da história).

Liév Míchkin está em um vagão de trem utilizando a moda suíça inadequada ao frio do degelo russo e que o faz parecer um tanto exótico próximo aos seus compatriotas, dos quais esteve por tanto tempo distante. Diante dele um passageiro chamado Parfión Rogójin puxa conversa e Míchkin não sente receio de contar o motivo de sua vinda da Suíça, onde se tratava com o Prof. Schneider de suas crises frequentes de epilepsia.  O jovem tem relações familiares distantes com a família Epantchín e deseja encontrar-se com eles antes de resolver outros assuntos importantes. Parfión, por sua vez, acaba contando sua história de retorno à casa do pai após sua morte, tendo em vista uma herança. Sua partida de lá se dera após uma confusão dos diabos que prejudicara financeiramente seu pai a custo da procura de uma boa imagem com a mulher mais bela (e mais mal falada) de Petersburgo: Nastássia Baráchkov. No vagão também está  outro personagem que conheceremos a fundo: o inconveniente Liebedev. Os dois personagens se despedem como amigos.

Com os Epantchín, Míchkin logo se torna uma espécie de favorito, com sua inocência social e conversa leve e sincera que faz com que se riam dele ao mesmo tempo em que ele se ri de sua própria “idiotice”, que nada mais é do que uma imensa compaixão pelas pessoas e incapacidade de desejar seu mal. Sua relação, a Sra. Epantchiná, é casada com um general e está em ânsias de casar as três filhas: Aleksándra, Adelaída e Agláia, sendo a caçula a mais bela e a para a quem se quer o melhor partido. Também na casa se encontra Gavríl Ívolguin, buscando o afeto de Agláia enquanto traça planos de casamento por dinheiro com Nastássia.

É Gavríl quem se incumbe de arranjar aposentos para Míchkin, uma vez que sua família aluga quartos na casa para contornar a grande dificuldade financeira, ampliada pelos hábitos perniciosos do pai de Ívolguin. Posteriormente nesse mesmo dia, Míchkin se encontrará com a famosa Nastássia e, fascinado com sua melancólica beleza que lhe dá uma pena enorme, propõe-lhe casamento para livrá-la de um futuro terrível. E isso tudo é só a primeira parte…

Eu queria que mais pessoas curtissem literatura russa, apenas para se deixarem levar por personagens tão fantásticos quanto os descritos por esse exemplo. Cada uma das pessoas descritas está travando batalhas internas ferrenhas, a de Míchkin sendo talvez apenas a com os resultados mais destrutivos, já que ele é sensível ao extremo e completamente consciente dos sentimentos dos envolvidos. Aliás, Míchkin é um personagem adorável. Como essa é uma releitura, já a iniciei com certa simpatia por ele, mas nem seria necessário pois conforme os fatos se sucedem a vontade que dá é pegar o pobre no colo, tamanha é a amizade que ele nutre por todos e sua incapacidade de se indispor até com aqueles que desejam seu mal. Nastássia é outra personagem pertencente a essa vertente. Como não ter a mesma impressão de Míchkin acerca de uma jovem que teve sua inocência roubada por aquele que deveria ser seu protetor, só para depois ser posta à venda, como um cavalo rebelde. Louca, ela é incapaz de seguir o curso de sua felicidade e ignorar os sussurros alheios, percebendo a si mesma como a pior e mais suja das criaturas.

Outro personagem que me atinou a atenção é Ippolít, o amigo tuberculoso do irmão caçula de Gávril. Certo de sua morte em tão tenra idade, Ippolít se revolta com a saúde dos outros e tece possibilidades ilusórias de vidas e sucessos que poderia alcançar se tivesse a força vital daqueles que compreende como preguiçosos e acomodados. Sua rebeldia exige apaziguamento e uma atenção que sempre serão insuficientes e a certeza da morte tolhe qualquer freio social que pudesse preservar. Quanto mais longe a morte parece, entretanto, mais parece que a agitação de Ippolít cresce.

“O idiota” também tem seus momentos arrastadinhos, afinal um livro com mais de 600 páginas quase sempre estará fadado a momentos de relativa calma, em que parece que nada está acontecendo, e diálogos que sugerem não estar indo para lugar nenhum. Talvez seja desses momentos (e também da dificuldade em se acostumar com nomes, sobrenomes e apelidos tão distantes de nossa realidade) que venha a crença de que Tolstói, Dostoiévski e Puchkin estão jogando contra o leitor e são autores difíceis. Mas acredite nele e persista até o fim, nem que seja para tomar o mesmo soco no estômago que eu tomei nas duas vezes que li o livro, a vontade de chorar e colocar Míchkin no colo em seu auge, assim como minha apreciação por Dostoiévski e outros autores russos, mestres em descrever o comportamento humano independente de sua época.

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3 thoughts on “Livro: O Idiota (Fiódor Dostoiévski)

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