Livro: A Metamorfose (Franz Kafka)

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Baseado em fatos reais:

Era uma madrugada qualquer em uma casa no Rio de Janeiro. A moça sentia sono. Já eram três da manhã e apenas o som do ressoar de seus pais chegava até a sala onde ela até então estivera assistindo aos primeiros episódios de uma série coreana muito promissora, ao mesmo tempo se espantando diante das benesses da globalização. A única luz vinha do lustre à sua direita e ela coçava os olhos, irritada e preguiçosa ante a perspectiva do deslocamento até o cômodo paralelo, escritório improvisado onde se localizava o aparato necessário para sua conexão com a rede mundial de computadores. Mas era tarde e era necessário. Sem muita paciência para esperar diante do computador seu desligamento, a jovem atravessou a cozinha e cruzava o curto espaço entre a copa e seu quarto, já estendendo a mão em direção ao interruptor de luz, quando estacou e reparou em algo estranho.

Um cheiro. Um fedor conhecido e insuportável que imediatamente fez os pêlos de seus braços se eriçarem e todos os seus sentidos se prontificarem, em alerta. Era o pior cheiro que podia sentir as três da manhã, quando todos os seus prováveis salvadores se encontravam nos doces braços de Morfeu. Só restava a ela armar-se e encarar sua pior inimiga: uma barata.

Procurando freneticamente pelo piso claro, tanto de seus aposentos de dormir quando do refeitório caseiro, acabou por encontrar seu algoz diante da porta de ligação ao escritório. O desafio aumentava. Agora sua última missão antes de dormir dependia de sua coragem e da morte da criatura amarronzada em frente ao batente. Munida de um veneno altamente poderoso a jovem encaminhou-se na direção da criatura e, mantendo uma distância segura em caso de um comportamento imprevisível desta, principiou seu feroz ataque, os dentes cerrados de nojo e aflição. Sua inimiga, entretanto, já devia estar debilitada devido a algum ataque anterior e logo se virou, suas perninhas se debatendo no ar enquanto agonizava, seus últimos segundos de vida aproximando-se lépidos. O combate estava encerrado. A garota podia continuar seu caminho previamente planejado sem maiores dificuldades com apenas dois pensamentos novos se insinuando em sua mente: sua capacidade olfativa fora do comum para identificar o repugnante inseto no mesmo momento em que adentrava o cômodo ocupado e, respondendo à recente pergunta sobre qual deveria ser o próximo livro a ser lido para um desafio auto-imposto, o vislumbre iluminado da capa de “A Metamorfose” de Kafka e sua exata localização na estante.

(Essa história acaba com uma surpresa, pois *spoiler alert*no dia seguinte, ao concluir a leitura a jovem percebeu que “A Metamorfose” é considerado um conto e não um livro e, como tal, não figura na lista do desafio. Fuem, fuem, fuem…)

Gregor Samsa é o protagonista de uma das histórias mais conhecidas de Kafka. Trabalham a favor de sua fama seu tamanho (menos de 100 páginas) e o fato de que serve como uma boa introdução para o universo kafkaniano. Aliás, eu mesma deveria tê-lo lido antes de recorrer ao “Processo”. Nas duas vezes em que o fiz acabei lendo uma obra level hard antes de passar pelo easy. O fato é que em um dia como todos os outros o Sr. Samsa desperta em sua cama sob a repugnante forma de um inseto nojento marrom, virado de barriga para cima. O espanto da situação não chega a ocupa o tempo considerável que se pressuporia. Mais importante do que sua nova forma para Gregor é a preocupação com o horário já avançado e a imposição de estar no escritório o mais rápido possível, preocupação partilhada com seus pais e irmã, que logo se impacientam com seu atraso e demora em abrir a porta. Quando finalmente consegue dirigir-se até a chave e abri-la, encara o choque de seus pais e logo entende que para o bem da família é melhor permanecer ali recolhido.

Samsa era arrimo de família, o filho mais velho que havia sacrificado a própria felicidade e ambição para ocupar um posto abaixo de suas expectativas e sustentar a família: o pai gordo e idoso, a mãe asmática e a irmã menor que estudava violino. Sabemos por alto que o pai de Gregor já chegou a ter um negócio que faliu e acumulou dívidas, o que obriga Samsa a dedicar grande parte de seu salário de caixeiro-viajante para seu pagamento.  Gregor não tem uma vida confortável, mas podemos perceber que ele se sente bem em proporcionar meios para seus familiares, especialmente a adorada irmã Greta, que planeja mandar para um conservatório. É Greta, aliás, que se incumbirá do tratamento do irmão transformado, não sem certo nojo e receio, nos dias subseqüentes. Logo, a família arranja meios alternativos para se suster e a própria existência do filho incapaz em um quarto trancado passa a ser um estorvo, em momentos em que o rejeitam e esquecem sua importância anterior.

Gregor se transformou em uma criatura que aprendemos a temer e rejeitar desde a infância, mas a sensação é que poderia ter se transformado em qualquer outra coisa, vítima de um mal súbito e incapacitante, e o resultado seria muito similar. Sua existência, ao menos o que sabemos dela, é limitada pela necessidade de auxiliar aos amados familiares, não deixando de ser amado quando na dificuldade (é, ao menos, o que podemos perceber pelo comportamento dual da mãe em determinados momentos), mas repelido pelo aspecto abjeto de sua nova situação e relativizado seu papel para o bem daquela família diante das imposições surgidas com o fim do esforço constante do filho trabalhador. Como pensam que Gregor não tem capacidade de compreender o que discutem entre si, deixam correr livre o fluxo de palavras que demonstram a repulsa e a busca de uma solução definitiva ao dilema que então enfrentam.  A faxineira é a única a dirigir algumas palavras ao “bichão”, endurecida pela vida pregressa de dificuldades, mas ainda assim isso esse contato, raro e insuficiente, não apazigua a solidão de Gregor e a tristeza que o acompanharão até seus últimos momentos.

P.S.: Ainda estou muito chateada dele não fazer parte do desafio, hmpf.

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