Livro: Une Vie (Guy de Maupassant)

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A ocasião é a seguinte: a dona desse humilde blog e autora dessas mal traçadas linhas que você contempla nesse momento (talvez sem entender, já que parece que esse blog tem um bocado de visitas dos EUA e da Rússia, vai saber por quê…), prestes a fazer uma prova de francês, resolveu que era melhor ler alguma coisa na língua para se aclimatizar e escolheu uma história que não parecia muito grande, do Guy de Maupassant, pensando que ainda serviria para o desafio e ela mataria dois coelhos com uma cajadada só.

Mas então o livro era muito interessante, muito bem escrito e extremamente capaz na arte de mexer com seus pobres sentimentos e a garota que precisava acordar cedo para fazer prova no dia seguinte terminou dormindo só umas três horinhas e rezando para acabar de fazer o maldito exame logo para poder aniquilar os últimos 10% que faltavam.

E isso tudo só é possível porque Guy MOTHERFUCKER de Maupassant é brilhante. Quanto mais eu conheço das obras dele, mais eu me encanto. O poder da narrativa é forte nesse jedi e, o que fica cada vez mais claro para mim, sua capacidade de descrever tão bem o comportamento das pessoas e de sua época (que tem ecos muito fortes nos comportamentos atuais, diga-se de passagem, já que a humanidade é dada a repetir comportamentos passados). Tomem como exemplo esse livro: é a história da vida de uma mulher, narrada sob os pontos de vista dela e de seus sentimentos e impressões. E é mais bem narrado e capta melhor a alma da personagem do que alguns trabalhos femininos jamais conseguiram chegar.

Jeanne é filha única de um casal extremamente rico, bondoso e muito amoroso com ela. Após ter passado a infância e juventude em um colégio de feiras, a bela e jovem loira volta para o convívio social cheia de esperanças de encontrar o amor e a felicidade doméstica. A mãe de Jeanne, Adelaïde, tem um problema de saúde e precisa do auxílio constante de uma empregada da idade de Jeanne chamada Rosalie. Vivendo na mansão perto do mar e com a ocasional visita dos vizinhos e do padre, logo surge um partidão para Jeanne que, apesar de menos rico do que ela, parece extremamente gentil e amoroso, e logo obtém a aprovação do Barão e sua esposa: o Vicomte Julien de Lamare.

Após apenas 3 meses os dois se casam. A noite de núpcias é um pesadelo completo para a pobre Jeanne, que nada sabia do que se passaria e se vê forçada a sofrer um ato que desconhece e não deseja. Os dois vão passar a lua-de-mel em Córsega e, apesar da felicidade da viagem e dos novos estímulos, Jeanne acaba descobrindo que Julien não é o príncipe que ela imaginava: é egoísta, mesquinho e não tem modos. A partir do ponto em que ele pegou a bolsa de dinheiro dada pela mãe a Jeanne e ela precisou pedir dinheiro a ele, eu já estava odiando-o. Ah, you know nothing Marília!

Quando voltam para Peuples, fica bastante claro para Jeanne que ela entrou em uma descida vertiginosa de tédio e submissão após os poucos meses de liberdade, sonhos e planos. Apesar de Julien a desagradar, ela guarda algum amor por ele e, mais importante, um sentimento de devoção matrimonial, mesmo que Julien não mais a procure de noite. Quando Rosalie subitamente dá a luz um filho, Jeanne ainda está em um período de relativa paz. Só que, claro, esse tapete também vai ser puxado de debaixo de seus pés. Infelicidades vão se acumulando no caminho de Jeanne, sendo o único ponto de luz o nascimento de seu filho Paul, que logo se torna tudo para ela, tomada de um amor materno quase doentio. E você vai ter muita raiva de Paul também, mas dá para entender os comportamentos acumulados em sua infância que acabam culminando nas desilusões que ele gera na fase adulta.

É um livro de cortar o coração. Não sei como formular isso sem pôr nessas palavras. Jeanne é muito inocente e tola ao início e cada tristeza dela acaba gerando uma marola de melancolia até o leitor. Diversas vezes tudo o que eu queria era pegá-la pelos ombros e sacudi-la até que ela tomasse alguma força para fazer algo que alterasse a vida que estava levando. Ao mesmo tempo, suas reflexões são desconhecidas para mim e tenho plena consciência que não tenho como reprová-la por seu sentimento de fidelidade mesmo ante os atos de Julien, a impossibilidade de desistir do filho mesmo quando ele lhe levava em passos largos para a ruína etc. Jeanne também está presa à moral de sua época, especialmente a religiosa que exige dela uma conduta irrepreensível enquanto permite certa liberdade ao seu cônjuge. Mais interessante é ver a inocência de Jeanne se perder com cada golpe do destino e até as figuras mais próximas se abrem aos seus olhos como detentoras de segredos impensáveis, fazendo-a perder sua fé na moral daqueles que a rodeiam.

 

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3 thoughts on “Livro: Une Vie (Guy de Maupassant)

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