Livro: Les Misérables (Victor Hugo)

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Há alguns posts atrás mencionei que precisaria de um tempinho até falar de livros novamente nesse humilde cantinho da internet pois estava lendo a maior obra da língua francesa. Esperei um longo tempo para começar a lê-lo porque queria ter a certeza que o entenderia por completo em sua língua original.  Esse livro era Os Miseráveis e levei um mês exato entre a primeira e a última página, tempo em que normalmente leria entre três e quatro livros de tamanho médio. Entretanto, foi um mês extremamente rico. O que Os Miseráveis tem em páginas, tem também em brilhantismo.

Como não torcer por Jean Valjean e se entristecer com suas desventuras? E Fantine e sua decadência, sempre movida pelo amor? Como não adorar Marius e seu amor e fidelidade? E Enjolras, a personificação dos ideais de um povo inteiro? E todos os outros, Javert, Cosette, os Thénardier… tantos personagens riquíssimos e dos quais é tão difícil dizer adeus.

Alguns personagens têm participações pequenas mas decisivas e até para estes podemos contar com uma descrição psicológica acurada para compreendermos posteriormente suas ações. É assim que aparecem, por exemplo, o Monsieur Bienvenue, uma quadrilha que age nos arredores de Paris, Monsieur Fauchelevent e os quatro amigos que se relacionavam com quatro mulheres, uma das quais Fantine. Os protagonistas são extremamente bem construídos: Jean Valjean e sua transformação em benfeitor dos miseráveis, seu amor por Cosette e a resolução em ser bom e abnegado; Fantine, que carregava “seu ouro nos cabelos e seu mármore nos dentes” e perde tudo, até sua moral, em dedicação à filha; Cosette, vivendo inocente e apaixonada, ignorante aos percalços que a levaram à sua condição; Marius, o jovem idealista, dedicado à memória do pai que ignorava em vida; os Thénardier, casal sem escrúpulos, representantes da maldade entre os miseráveis, e suas filhas e filhos, vítimas do meio em que nasceram; Gavroche, representante da infância jogada às ruas, espezinhada e mal-tratada, e ainda assim contente por sua liberdade e sensível às tristezas alheias; Javert, a personificação dos ideais da justiça e da lei, um tigre no rastro de sua presa favorita.

O livro é permeado de pausas explicativas, capítulos e mesmo livros em que o autor suspende a narrativa para explicar algum momento histórico específico, a excepcionalidade francesa ou, até mesmo, a evolução do sistema de esgotos parisiense. E o mais impressionante no livro talvez se deva por isso mesmo, já que assim a obra se torna complexa e ultrapassa o sistema de narrativa de personagens para se tornar um extrato da psicologia humana, das diferentes concepções filosóficas sobre o ser humano e do papel da história francesa como exemplo das tentativas de superação da miséria e das dificuldades. Assim, ela termina por ser uma obra compreensível a partir de vários paralelos. E, para fechar com chave de ouro, a escrita de Hugo é leve, fácil e explicativa, o que nos transporta para o exato ponto em que ele nos quer colocar, principalmente quando se trata de Jean Valjean e toda a sua gama de sentimentos em seu caminho em busca da redenção de seus crimes passados.

P.S.: O musical “Os Miseráveis” é inspirado no livro e nem ao menos tenta abranger essa multiplicidade de paralelos que o livro atinge. É bonitinho, mas equivaleria a eu tentar te contar em um tempo máximo de cinco minutos o que acontece em mais de mil páginas, então fica faltando muita coisa. Ex.: Os pais de Gavroche são os Thénardier e eles ainda tiveram mais dois filhos meninos, crianças que venderam; o pai de Cosette aparece no livro e você vai odiá-lo profundamente; Monsieur Bienvenue tem uma história complexa  por trás e muito mais destaque do que os dois minutos dedicados a ele no longa com o Hugh Jackman de Jean Valjean *começa a digressão* quem foi que escalou ele, aliás? Jean Valjean passa mais da metade do livro com aparência de um forte homem de 50 anos e o Hugh ainda não chegou lá. Sem contar que nem cantar bem ele consegue! *fim da digressão*; e assim em diante.

P.P.S.: O livro é de 1862! Comece a lembrar de datar esses posts, Marília! Já passou da hora.

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4 thoughts on “Livro: Les Misérables (Victor Hugo)

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