Livro: O Crime do Padre Amaro (Eça de Queirós)

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Como eu amo o Naturalismo e o Realismo! Só recentemente percebi quantos dos meus autores preferidos pertencem a essas escolas literárias. E Eça de Queirós é um desses.

Já tinha lido “O Crime do Padre Amaro” bem mais nova, quando tinha lá pelos meus 13 anos. A tristeza do fim da leitura sempre me fez recear lê-lo novamente, mas devido ao Desafio essa já não era mais uma escolha, até porque há tempos queria inserir os autores de língua portuguesa nessa mistura. Esse livro nem faz parte da listinha oficial apontada anteriormente, mas faz da listinha paralela, incluído na edição de 2008 do desafio, livros extras que eu incluí na minha contagem (que fica assim com mais de 1200 livros).

O livro trata sobretudo da hipocrisia eclesiástica. O protagonista, Amaro Vieira, se sentiu extremamente atraído pelas mulheres desde criança, mas a intervenção da senhora em cuja casa sua mãe trabalhava o encaminhou para o sacerdócio. Seus dias de estudo e, posteriormente, missas e comunhões nunca foram isentos de dúvidas e “tentações à carne”, mas é somente em Leiria, cidade para a qual consegue transferência devido as suas ricas relações, que se liberta de verdade a personalidade por trás da batina.

A princípio o jovem padre é colocado na casa da S. Joaneira (apelido, ela tem um nome na obra mas se muito foi dito uma vez e eu esqueci) que tem uma filha moça muito bonita, Amélia. A casa da S. Joaneira é ponto de encontro diário das senhoras mais beatas da comunidade e dos padres. Lá se destilam os venenos acerca da vida alheia e, principalmente, instaura-se na alma das mulheres o temor pela condenação eterna ante as coisas mais tolas. É também na casa da Rua da Misericórdia que vem sempre João Eduardo buscar casamento com Amélia, mas as coisas parecem andar em um passo muito devagar nesse sentido. Não é preciso ser muito esperto para antever o que vai se passar: o envolvimento de Amélia e Amaro.

Amaro evita a tentação no começo, temeroso, e chega a se mudar para evitar os encontros tão freqüentes com Amélia. Um dia, entretanto, ao pegar o Cônego Dias e a S. Joaneira no flagra, somando-se aos segredos de outros religiosos, Amaro perde qualquer inibição que o prendesse aos seus valores morais de padre e passa a ativamente buscar a companhia de Amélia e eles vivem de apertões e esfregões discretos na sala repleta da casa de Amélia. João Eduardo, o único que parece notar essa aproximação, começa a se roer de ciúmes e escreve um artigo para o jornal contando os podres de todos aqueles conhecidos da Rua da Misericórdia, culpando especialmente a vilania dos jovens padres que vinham seduzir as incautas mocinhas. De boca em boca (e violando o segredo da confissão) acaba-se descobrindo o autor do artigo e João Eduardo é excomungado, seu noivado desfeito, despedido de seu emprego e visto com maus olhos por todos. Ele sai de cena por hora, indo para Lisboa e se crendo não só vítima do poder eclesiástico local, mas de toda uma conspiração político-religiosa. 

Amaro e Amélia têm uma liberdade quase completa a partir desse ponto e Amaro vence os recatos religiosos de Amélia por meio de argumentações, de modo que acabam por meses se encontrando duas ou três vezes por semana na casa de um viúvo e sua filha inválida. Amélia devota a Amaro o mesmo amor que antes devotava aos santos e ele passa a ser a razão de sua existência. Amaro infla com tamanho afeto e realmente passa a se crer algo de especial. Desses encontros o Cônego Dias toma conhecimento pela inválida e se torna cúmplice de Amaro. Os dias bons se findam quando Amélia engravida e as conseqüências de Amaro se tornaram tão odiosas que não dava mais para o ter em alguma estima, isso tanto eu como eleitora quanto Amélia como beata decepcionada, crendo-se desgraçada em todos os sentidos.

A obra foi escrita em 1879 e, como dito, reflete toda a hipocrisia da classe religiosa que dividia o poder com o monarca português. Era essa classe deturpada, portadora de pecados piores do que os de seu rebanho e armadores de estratagemas na pequena e na grande política. As figuras de “sanidade” na obra são o médico – Dr. Gouveia – e sua opinião bem atípica de rejeição à submissão total a Igreja, e o abade Ferrão, padre de um rincão rural próximo a Leiria e realmente preocupado com seus fieis, pintando uma imagem de deus e céu muito mais aprazíveis e suaves do que seus pares em Leiria, onde todos os pecados são encontrados, até aqueles que não existem no cânone.

Mais interessante, o livro termina com essa união de religião e política, em uma conversa que termina com a admiração da sociedade portuguesa, construída (em tese) sob tão fortes pilares morais. Só que o cenário descrito pelo autor é bem diferente do poço de virtudes comentado pelos personagens, tratando-se de um mundo decrépito, com cheiro de esgoto e ares de crime e devassidão.  

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2 thoughts on “Livro: O Crime do Padre Amaro (Eça de Queirós)

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