Livro: 11/22/63 (Stephen King)

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Fugindo um pouquinho do desafio, resolvi terminar um livro que já tinha começado faz um bom tempo. Para dizer a verdade, eu acho que o comecei assim quando terminei o “Under The Dome”, mas pelo seu ritmo ser um tanto quanto mais arrastado, até mesmo para o padrão Stephen King, acabei protelando sua leitura. Estava levando-o com a barriga. Quando não tinha um livro físico do desafio em mãos, acaba lendo um capítulo aqui e ali, mas não estava fazendo muitos progressos. E aí eu me vi ilhada em Niterói por três semanas e meus dois livros do desafio que havia levado para lá já haviam sido terminados. Então por que não encarar os 30% restantes do King? E foi aí que a coisa deslanchou e eu não pude desgrudar os olhos do Kindle e cheguei a lavar a louça e cozinhar com ele ao lado, a despeito dos riscos que um aparelho eletrônico poderia sofrer com isso, para descobrir logo o que acontecia no final.

Jake Epping é o protagonista desse livro de King e também seu narrador. Ele é um professor de inglês em uma cidadezinha do Maine, separado de Christy, uma alcoólatra em recuperação, que o largou por outro, e que quase nunca chora. Um dia, corrigindo redações de sua turma de alfabetização adulta, ele se depara com um relato que o toca profundamente, vindo do zelador da escola. Epping passa a ver Harry Dunning com outros olhos a partir de então e, em sua formatura, leva-o para comemorar em uma lanchonete de má reputação devido ao baixo preço de seus hambúrgueres, mas boa comida.

No dia seguinte, o dono da lanchonete, Al, chama Jake com ares de urgência e sua aparência abatida e diametralmente oposta à do dia anterior prenuncia a história fantástica que Al contará: a existência de um “rabbit-hole”, uma fenda temporal na despensa da lanchonete que o leva diretamente para 1958. No seu limite de pensamento comercial, Al utilizou a fenda, a princípio, apenas para comprar carne a um preço mais barato e fazer hambúrgueres a um preço mais vantajoso de que seus concorrentes. Existem algumas regras na utilização do “rabbit-hole”: toda vez que você volta a 1958, sua ida anterior e as mudanças que pode ter causado são obliteradas e você sempre cai no mesmo dia, com suas mesmas interações (à princípio, a não ser que você as altere); a volta para 2011 traz a reboque as mudanças feitas em 1958, as intencionais e aquelas que você não poderia prever, decorrentes do efeito borboleta; dinheiro, roupas e alimentos (como a carne de Al prova) voltam com você para o tempo presente e, muito importante, não importa quanto tempo você passe no passado, ao chegar em 2011 só haverão se passado dois minutos.

 Após um breve teste dessas regras por Jake na Land of Ago, Al pode explicar o motivo de sua aparência tão alterada e de sua chamada urgente. Al, depois de anos apenas se aproveitando da transação alimentícia, vislumbrou a possibilidade de realizar uma grande mudança no fluxo histórico ao impedir o assassinato de John Kennedy, em 22 de novembro de 1963, por Lee Harvey Oswald. Ele se preparou e passou anos tentando se certificar que não havia margem para a realização de teorias conspiratórias e que Lee Oswald era o verdadeiro e único responsável, seguindo Oswald por onde quer que ele fosse e estudando seus movimentos, até atingir uma certeza tal que garantisse que sua ação não resultaria na morte de um inocente. Entretanto, Al era um fumante inveterado e acabou doente, com um câncer de pulmão que o impediria de dar progresso a sua minuciosa pesquisa. E aí entra Jake e o pedido de Al, para que ele fosse o autor da mudança no espaço-tempo. 

O primeiro pensamento de Jake se dirige à tragédia de Harry e na possibilidade de alterar o caminho de sua triste história ao intervir em uma data específica. Como sua falta só acarretará dois minutos perdidos na Land of Ahead, ele parte para 1958 com uma identidade falsa para cumprir sua missão. Essa primeira parte nos introduz a todas as implicações da mudança do tempo e suas conseqüências inesperadas e serve de preâmbulo para a grande missão que se seguirá, quando Jake retornar para o passado, com o dia 22 de novembro de 1963 como limite e Lee Oswald como meta. E o passado é uma máquina com dentes que luta contra sua alteração.

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Tudo isso é conduzido com maestria por King, apesar de, como já havia dito, o passo da história ser um pouco lento demais até para os padrões do autor e, por vezes, esse caráter de cumprir a missão se aproxime em demasia de “Dead Zone”, um outro livro do autor. Poucas vezes vemos pulos temporais nesses cinco anos em que o agora George Amberson passa no passado. O protagonista sabe que tem limitações grandes para seu intento: primeiro, sua margem de repetições é limitada – quem aguentaria viver os mesmos cinco anos por vezes sem fim até fazer tudo de modo perfeito?; segundo: o trailer onde funciona a lanchonete que abriga a fenda temporal será mudada de lugar nesse mesmo dia e, quando isso ocorrer, a fenda deixará de existir e ele não mais poderá retornar ao passado e, terceiro e mais importante:  as relações pessoais de George Amberson crescem e até mesmo um amor inesperado surgem em sua vida, com todas as conseqüências que esse envolvimento pode trazer.

O fim, claro, é um grande “e se” histórico, considerando as piores possibilidades dos acontecimentos não ocorridos. O protagonista finalmente entende os enormes riscos de qualquer ação alterada para o tecido da realidade, a importância dos vários fios espaço-tempo simultâneos que seguram o universo no lugar e, eu como leitora, não pude relaxar até chegar à última palavra do manuscrito de Jake Epping/ George Amberson.

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