Livro: A Revolução dos Bichos (George Orwell)

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Posso primeiro começar dizendo o quanto eu amo esse livrinho (inho mesmo, com menos de 100 páginas)? Sensacional, maravilhoso, fantástico… “A Revolução dos Bichos” é um daqueles livros que dá vontade de carregar na mochila, levar para todo lugar e ler em qualquer ocasião. Quando eu o li pela primeira vez ainda não tinha o conhecimento histórico que tenho hoje (que também não é muito, mas vá lá…) e mesmo assim ele já era especial aos meus olhinhos juvenis. Aí eu aprendi sobre Marx, Revolução Russa, Lenin, Trotski e Stálin e tudo se aclarou.

Antes de falar da história, deixa eu dizer que Orwell era socialista sim, mas contra a forma de socialismo totalitarista de Stálin. E como eu acho que vale mais à pena contar a alegoria em paralelo com a história mundial, cá estou eu para fazer isso. E como vai ficar um pouco grande, te aconselho a pegar uma cadeira confortável, uma xícara de chocolate quente e uns biscoitinhos.

  • Na Granja do Solar, uma fazenda inglesa, um velho porco chamado Major reúne os animais para falar de uma ideia maravilhosa. Cavalos, cães, vacas, porcos, galinhas e outros animais escutam o respeitado porco. E ele diz que o homem é um inimigo, um tirano que se alimenta e usufrui de seu trabalho sem nada lhes dar em troca e sem produzir ele mesmo. A solução é a rebelião, que é certa e virá mais cedo ou mais tarde. O que anda sobre 4 patas é amigo, o que anda sobre 2 é inimigo. Animal algum deve morar em casa, usar roupas, beber álcool, fumar, tocar em dinheiro e comercializar. A reunião termina com o canto do hino “Bichos da Inglaterra”.
    [ Major aqui simboliza os pais ideológicos da doutrina socialista, Marx principalmente, mas também Lenin,como mais tarde será mostrado. Os fundamentos básicos estão aí: claramente o Homem é o capitalismo e os animais são a força proletária explorada pelos seus interesses. A revolução socialista também é descrita como inevitável.] 
  • O Major morre três dias depois e seu corpo é enterrado. Intensa atividade ideológica acontece na fazenda e dois porcos se destacam: Bola de Neve e Napoleão. Garganta, outro porco, se comunica muito bem. Eles três ensinam os fundamentos do Animalismo para os outros, apesar da resistência inicial dos animais. Uma outra figura importante nessa parte é Moisés, um corvo que vive apregoando a existência da “Montanha de Açúcar-Cande”, para onde os animais vão após a morte, lugar que os porcos não acreditam existir. A Rebelião ocorre quando a fazenda se encontra fragilizada e os animais passando fome. Jones, o dono da fazenda, é posto pra fora da fazenda e os animais tomam controle da Granja do Solar, agora transformada em Granja dos Bichos. Na parede do celeiro os porcos escrevem os sete mandamentos.
    [O Sr. Jones é aqui uma alegoria ao Czar Nicholas II e Moisés é a religião na que ele tinha extrema confiança. Mesmo antes da Primeira Guerra uma ampla oposição já crescia contra o governo czarista e as ideias socialistas se espalhavam na Rússia. O Czar tentava abafar essa insatisfação e chegou a propor uma reforma política para logo depois cancelá-la. Decidiu entrar na Primeira Guerra como forma de reavivar o prestígio russo e unidade nacional. Essa tentativa, como mostrou a História, foi um fracasso em seus propósitos e a Rússia passava por graves problemas, como uma grande fome e descontentamento político popular enorme. Em 1917 ocorreu o levante que culminou com a implementação do novo regime na Rússia.] 
  • Os animais trabalham duro, confiantes nos ideais da Revolução. É um tempo bom, com muita comida e lazer e os animais estão alegres, com exceção de Benjamin, o burro, que evita sempre tomar posições acaloradas e se limita a dizer que os burros vivem muito tempo (pausa aqui: na história eu me identifico demais com Benjamin. Despausa.). A Revolução ganha uma bandeira: um casco e um chifre sobre o fundo verde. As decisões são tomadas por votos durante reuniões semanais, mas são os porcos que realmente dominam nesse campo. Bola-de-Neve e Napoleão nunca estão de acordo nessas reuniões. Enquanto Bola-de-Neve está entretido com a organização de inúmeros comitês, Napoleão está interessado na educação dos mais novos e pega alguns filhotinhos de cachorro para educá-los ele mesmo. O mistério do leite desaparecido é desvendado: é misturado à ração dos porcos que, como mentores intelectuais, acham que detém mais necessidade desse privilégio.
    [À princípio, A Revolução Russa também se organiza através de comitês e um conselho principal, o Petrograd. Com o tempo isso vai sendo abrandado, à medida que a alta-cúpula do poder acha que a Rússia ainda não está preparada para o socialismo. Há algo chamado de poder dual durante essa época: de um lado essa alta-cúpula, o Petrograd e os representantes dos trabalhadores soviéticos (bolcheviques), do qual Lenin fazia parte. Aqui se torna claro que Napoleão representa Stalin e Bola-de-Neve tem grandes semelhanças com Trotski.] 
  • A notícia da Revolução dos Bichos se espalha pelas redondezas. Duas granjas próximas entram na história: Foxwood, do Sr. Pilkington, e Pinchifield, do Sr. Frederik. Essas duas granjas vivem às turras, mas concordavam que deviam afastar o perigo da chegada da revolução em suas próprias fazendas. Esses dois espalham boatos sobre atrocidades lá ocorridas: canibalismo, tortura etc. Uma tentativa é armada para retomar a granja, por Jones e esses dois fazendeiros, após inúmeras revoltas de animais em fazendas próximas. Os animais conseguem vencer e Bola-de-Neve recebe uma condecoração por causa de sua valentia. Chega o inverno e as coisas se tornam mais difíceis na fazenda. Além da dificuldade de cuidar dos afazeres normais, Bola-de-Neve e Napoleão  discordam em todos os planos. Bola-de-Neve propõe a construção de um moinho de vento para que haja uma melhora da condição de vida na fazenda. Napoleão é desfavorável a essa resolução e, durante sua votação, chama os cachorrinhos que vinha “educando” e eles perseguem Bola-de-Neve para fora da fazenda. Começa o período de poder de Napoleão. Ele informa aos outros que construirão o moinho e clama como sua a ideia, desde seu princípio.
    [A Rússia muda de nome e bandeira. Mais tarde agrega outros países no que conhecemos como União Soviética. O governo provisório foi derrubado pela Revolução de Outubro, que concede o poder aos bolcheviques. A ideologia de Lenin, baseada na obra de Marx e implantada por Trotsky, é o que poderíamos correlacionar aos pensamentos de Bola-de-Neve. Há uma guerra civil que os bolcheviques ganham e conseguem impor seu governo. A construção de Lenin (e Bola-de-Neve) pode ser interpretada tanto quanto de ordem ideológica quanto física, pois na época de sua morte ele estava envolvido na construção de um dínamo (que serve para provir energia, olha só). Já Trotsky e Stálin nunca concordaram e quando a pesada perseguição de Stálin desceu sobre a Rússia, Trotsky foi obrigado a retirar-se e morreu assassinado no exílio. As fazendas vizinhas aqui citadas fazem referência à Alemanha (Pinchfield, do Sr. Frederik, bem óbvio) e à Inglaterra e EUA (Pinkington).  
  • Começa a construção do moinho. Napoleão anuncia que passarão a negociar seus produtos com outras fazendas e, para aqueles que questionaram tal decisão ao relembrar tempos idos, ele diz que nunca houve tal proibição e tratavam-se de mentiras disseminadas por Bola-de-Neve, que sempre havia trabalhado para o outro lado. Os esclarecimentos são feitos sempre por Garganta, o porco que consegue convencer qualquer um de qualquer coisa. Napoleão negocia com as duas fazendas vizinhas, mas nunca com ambas ao mesmo tempo, manobrando os interesses. Nessa época os porcos se mudam para a casa grande. Quando a construção incompleta do moinho desaba em uma noite de vento, mais uma vez se culpa Bola-de-Neve e começa o terror na fazenda de que Bola-de-Neve esteja em todo o lugar, atrapalhando tudo o que fazem. A comida constantemente, com exceção para os porcos. Entretanto, essas derrotas eram ocultadas do resto do mundo. Pelo bem da revolução isso era imprescindível. Em uma noite de terror, Napoleão pede a confissão de animais que ajudaram Bola-de-Neve e seus cães os matam um a um. Mas ainda assim não há ideias de revolta pois estão convencidos de que se submeterem ao poder dos homens é ainda pior. O hino da revolução é abolido e o crânio de Major é desenterrado e posto em exposição.
    [Stálin aumentou o poder e número da polícia secreta e das instituições de inteligência interna. Sua perseguição interna (Grande Expurgo) é uma das grandes marcas de seu governo e resultou na morte de muitos, condenados devido à contra-revolução. Também, a grande propaganda interna que transformava sua figura em algo semelhante a um deus, responsável por todas as vantagens que aconteciam, bem como Napoleão na fazenda. A fome aumentou no governo stalinista. No campo das relações internacionais, buscou realizar uma aliança anti-alemã e, no outro front, também discutia com a própria Alemanha um trato. Acabou firmando um pacto de não-agressão com a Alemanha, da qual veremos os resultados no próximo tópico.]
  • O tratamento ao porquinho manda-chuvas muda e agora ele é chamado por Líder, Pai de Todos os Bichos, Terror da Humanidade etc. “Tornara-se usual dar a Napoleão crédito por todos os êxitos e todos os golpes de sorte.” Napoleão negocia com as fazendas vizinhas a venda de pilhas de madeira seca da fazenda e, após idas e vindas, o trato é feito com Frederik, que o paga em notas falsas. No dia seguinte vem o ataque de Frederik. Quando pedem ajuda ao Sr. Pilkington, recebem apenas um recado escrito “Bem-feito”. Com a destruição do moinho recém-construído, os animais reúnem suas forças para fazer frente ao ataque inimigo e derrotam Frederik. Alguns dias depois,os porcos encontram uma caixa de uísque na casa e, daí, surge o interesse em cultivar cevada e fazer cerveja, que só será consumida pelos porcos. A fazenda é declarada República e Napoleão, único candidato, é eleito. Moisés, o corvo da “montanha de açúcar-cande” volta à fazenda com a anuência de Napoleão.
    [O trato de Stálin e Hitler de não-agressão é quebrado quando Hitler implementa a Operação Barbarossa, invadindo territórios soviéticos. A guerra é declarada no front oriental e os soviéticos conseguem impedir o avanço alemão. As partes no livro que tratam do crescimento da fazenda, com nascimento de novos animais e chegada de outros, parece ter relação com a cortina de ferro.]
  • Última parte: os anos se passam e os porcos parecem cada vez mais com os humanos. Os animais mais velhos tentam lembrar do início da revolução e dos sete mandamentos. Quitéria, uma égua bem velha, pede a Benjamin, o burro, que leia para ela os mandamentos mas agora há apenas um: “Todos os animais são iguais, mas alguns animais são mais iguais do que os outros”. Os porcos passam a andar com chicotes e, um dia, os animais da fazenda testemunham humanos e porcos dividindo a mesa da casa, e olhando de um para o outro, não conseguem mais distinguir quem é homem e quem é porco.
    [Os anos se passam e o regime soviético vai se abrindo até parecer cada vez mais com o capitalismo, se tornando socialismo apenas no nome e seus líderes também perdem os ideais pelos quais os reconheceríamos. E o fim da história a gente já conhece.]
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4 thoughts on “Livro: A Revolução dos Bichos (George Orwell)

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