Livro: A Consciência de Zeno (Italo Svevo)

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Mais um livro, mais um post.

Eu já havia lido “La coscienza di Zeno” quando mais nova, mas esquecera quase tudo. Esse é um dos livros que me levou a começar o Desafio Literário, pois tinha apenas uma cena bem marcada na memória e o resto era névoa.

O livro começa com uma brevíssima apresentação do Dr. S., psicanalista que tratou Zeno Cosini por algum tempo e que o fazia escrever suas memórias com a maior dose possível de sinceridade (mas no fim, Zeno admite que é permeado de inverdades) para que mais tarde pudesse analisar seus sentimentos e dar uma cura às dores do paciente, intimamente ligadas ao seu estado emocional. A publicação do livro é, então, uma imensa facada nas costas do Dr. S. a Zeno. E apenas mais uma das inúmeras esquisitices que ocorrem na vida do personagem.

Separado em alguns capítulos, como se tratasse em temas, Zeno narra sua vida, entre o fim do século XIX e o começo do século XX (obs.: notei que sempre esqueço de situar a época em que se passam as histórias e vou tentar remediar isso a partir de agora).

O personagem é um otimista, um tanto hipocondríaco e que busca um certo padrão de saúde nas pessoas ao seu redor. Zeno sempre parece falar e agir antes de pensar, sem temer as consequências demais pois acredita que através da própria fala conseguirá reverter a situação criada (e o mais interessante é que ele na maioria das vezes consegue). Seu primeiro tema é o vício pelo fumo: Zeno é um fumante compulsivo, que sempre marca ocasiões para seu último cigarro, sem nunca realizar o intento. Ao analisar o início do vício, Zeno aproveita para nos introduzir a sua infância (a mãe e o irmão mais novo morrem quando ele é ainda bastante jovem) e o relacionamento com o pai. um homem circunspecto e sério, ligado ao trabalho: o extremo oposto ao filho. A relação adulta entre ambos se intensifica na segunda parte, quando Zeno começa a tratar de sua vida adulta.

Quando o personagem chega à idade adulta, principia a buscar uma esposa e o realiza através de Giovanni, um amigo “espertão” do mundo dos negócios. Giovanni tem quatro filhas e Zeno, antes mesmo de conhecê-las já tem certeza de casar-se com uma delas. A escolhida é a mais bela das irmãs (que nunca demostrou nenhum sinal de afeto em relação a ele), mas nessas viradas típicas da história do personagem, ele acaba se casando exatamente com aquela a quem rejeitara com mais veemência em um primeiro momento e ele a ama a partir do momento em que se dispõe a amá-la. Zeno é mesmo um fanfarrão.

Vale dizer que era nesse ponto que aquela cena de que me lembrava do livro se passava. A cena em questão é quando o personagem narra como, em suas visitas à época do noivado com Augusta, ele a beijava baseado na curiosidade da reação da noiva, que avermelhava-se e lhe dava mais uma vez a vontade de beijá-la para obter tal reação. Só deus sabe porque raios essa passagem em específico ficou marcada na minha memória.

Outra parte trata de sua relação com sua primeira amante, apesar da certeza de seu amor por Augusta, e a tentativa de fazer com que Carla se distanciasse dele, o que no princípio acaba por encantá-la ainda mais. É uma série de bizarrices que se passa nessa relação, em que Zeno passa a imagem de marido ideal, inclusive para Carla, e não vê nenhuma irregularidade disso com seu comportamento atual. Ele tem a certeza de amar a esposa e querer terminar as coisas com Carla, mas ao mesmo tempo adia o final até o ponto em que um planejamento meio absurdo acaba por concretizar as coisas por ele. E aí ele vê que na verdade não queria que isso ocorresse.

A penúltima parte trata de sua inserção no mundo dos negócios devido à intervenção do cunhado, Guido, e das tragédias que se seguem a esse negócio (que na verdade estava condenado desde o princípio e Zeno parecia saber). Na última parte, trata de explicar o que se passa para que procure a psicanálise, sua vida familiar e a doença que sentia ter, mesmo quando irradiava saúde. A partir de sua autoanálise termina o livro com uma profecia sensacional (se considerarmos que o livro é de 1923) para nossos tempo, que eu reproduzo aqui em baixo:

“O homem, porém, este animal de óculos, ao contrário, inventa artefatos alheios ao seu corpo, e se há nobreza e valor em quem os inventa, quase sempre faltam a quem os usa.Os artefatos se compram, se vendem, se roubam e o homem se torna cada vez mais astuto e fraco. Compreende-se mesmo que sua astúcia cresça na proporção de sua fraqueza. Suas primeiras máquinas pareciam prolongamentos de seus braços e só podiam ser eficazes em função de sua própria força, mas, hoje, o artefato já não guarda nenhuma relação com os membros. E é o artefato que cria a moléstia por abandonar a lei que foi a criadora de tudo que há na Terra. A lei do mais forte desapareceu e perdemos a seleção salutar. Precisávamos de algo melhor do que a psicanálise: sob a lei do possuidor do maior número de artefatos é que prosperam as doenças e os enfermos.
Talvez por meio de uma catástrofe inaudita, provocada pelos artefatos, havemos de retornar à saúde. Quando os gases venenosos já não bastarem, um homem feito como todos os outros, no segredo de uma câmara qualquer neste mundo, inventará um explosivo incomparável, diante do qual os explosivos de hoje serão considerados brincadeiras inócuas. E um outro homem, também feito da mesma forma que os outros, mas um pouco mais insano que os demais, roubará esse explosivo e penetrará até o centro da Terra para pô-lo no ponto em que seu efeito possa ser o máximo. Haverá uma explosão enorme que ninguém ouvirá, e a Terra, retornando à sua forma original de nebulosa, errará pelos céus, livre dos parasitas e das enfermidades.”

 

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2 thoughts on “Livro: A Consciência de Zeno (Italo Svevo)

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